Laranja de mesa se valoriza, mas ainda não substitui indústria

O consumidor está trocando suco de laranja pela fruta in natura? De fato, a citricultura brasileira está vivendo uma mudança importante, porém os números disponíveis ainda não permitem afirmar que a laranja destinada ao consumo como fruta fresca esteja substituindo a fruta destinada à indústria.

Dados de instituições como IBGE, Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), Centro de Estudos Avançados em Economia Aplicada (CEPEA-ESALQ/USP) e Departamento de Agricultura dos EUA (USDA) mostram com clareza que a escassez de laranja tornou os dois mercados concorrentes pela mesma fruta e elevou de forma expressiva o valor da produção para consumo ao natural. Ao mesmo tempo, o mercado mundial de suco de laranja vem encolhendo, especialmente nos Estados Unidos e na União Europeia.

Assim, a combinação de menor consumo, redução da produção brasileira em algumas safras, efeitos do greening (HLB) e problemas climáticos, associados a estoques mundiais muito baixos de suco, vem provocando uma situação inédita nos últimos anos: a indústria passou a pagar valores recordes pela matéria-prima, enquanto a laranja de mesa também atingiu os maiores preços reais da série histórica do CEPEA.

Produção brasileira

De acordo com a Pesquisa Agrícola Municipal (PAM), do IBGE, a produção nacional de laranja situou-se em 16,71 milhões de toneladas em 2020 e permaneceu nesse patamar até 2025, com 16,56 milhões de toneladas.

Isso, porém, não significa estabilidade da oferta para a indústria. Nesse segmento, o Fundecitrus, que acompanha a situação na principal região produtora do país, o cinturão citrícola São Paulo-Minas Gerais, mostra oscilações:

Safra      Produção (milhões)
 Cx 40,8 kgToneladas
2020/21268,6310,96
2021/22262,9710,73
2022/23314,2112,82
2023/24307,2212,53
2024/25230,879,42
2025/26292,9411,95
2026/27 (*)263,1510,73

(*) Primeira reestimativa – setembro/2026

A safra 2024/25 foi particularmente severa, com queda de 24,85% em relação à safra anterior, representando a segunda menor produção dos últimos 37 anos. O Fundecitrus atribuiu esse resultado principalmente ao clima adverso e à elevada incidência de greening.

Em 2025/26, houve recuperação, mas o resultado ficou 6,9% abaixo da estimativa inicial. Mais uma vez, o déficit hídrico e o greening foram os fatores limitantes.

Para 2026/27, a reestimativa divulgada em setembro elevou a previsão para 263,15 milhões de caixas, que ainda fica aproximadamente 10% abaixo da safra anterior.

Mudanças nos valores

Um dado relevante sobre o destino das frutas é que a indústria continua absorvendo aproximadamente quatro quintos da produção. O que vem mudando é o valor relativo da fruta safra após safra.

Em 2022 (janeiro a novembro), segundo o CEPEA, no mercado in natura a laranja pera teve média de R$ 38,93 por caixa de 40,8 kg (1,6% abaixo de 2021); na indústria, o preço chegou a R$ 31,22 por caixa (8% acima de 2021). A valorização da matéria-prima para a indústria se deveu aos baixos estoques de suco.  

A partir de 2023, a pressão se intensificou. Em dezembro desse ano, a laranja pera de mesa já superava R$ 70,00 por caixa. O aumento, de acordo com o CEPEA, deveu-se ao fato de os estoques de suco estarem em níveis críticos, levando a indústria a absorver parcela significativa da oferta, reduzindo a quantidade disponível para o mercado in natura.

Em janeiro de 2024, a laranja pera de mesa chegou a R$ 82,08 por caixa. Em março desse ano, algumas regiões paulistas já registravam R$ 100,00 por caixa, o maior valor real da série histórica do CEPEA, iniciada em 1994 e corrigida pelo IGP-DI. Ao mesmo tempo, a fruta destinada à indústria também estabelecia recordes. Em março de 2024, negociações spot chegaram a R$ 60,00 por caixa, também recorde real da série do CEPEA, enquanto contratos para a safra seguinte eram negociados ao redor de R$ 65,00. Em outubro, o preço médio pago pela indústria já havia ultrapassado R$ 90,00 por caixa, enquanto no mercado de fruta in natura a laranja pera também superava R$ 100,00.

O ano de 2025 começou com preços industriais ainda elevados, sustentados pela oferta restrita e pela demanda por frutas de boa qualidade. Mas, nos meses seguintes, estoques de suco de qualidade inferior e o enfraquecimento da demanda industrial por novos lotes de laranja passaram a pressionar os preços pagos ao produtor. A perspectiva de uma safra 2025/26 mais volumosa reforçou esse movimento.

O efeito natural é simples: quando a indústria deixa de disputar tão intensamente a fruta, aumenta a disponibilidade potencial para o mercado in natura e os preços deixam de sofrer a mesma pressão altista.

Mundo toma menos suco de laranja

A mudança mais importante está ocorrendo na demanda internacional. De acordo com USDA, o consumo de suco de laranja vem caindo no mundo (dados em milhões de toneladas):

2020/21: 1,660

2021/22: 1,606

2022/23: 1,472

2023/24: 1,389

2024/25: 1,304

Essa queda foi puxada em especial pelos Estados Unidos, principal mercado individual, onde o consumo caiu cerca de 10% em quatro anos (dados em mil toneladas):

2021/21: 542

2021/22: 526

2022/23: 497

2023/24: 486

2024/25: 486

Essa mudança é ainda mais significativa porque ocorreu simultaneamente à deterioração da produção americana, que caiu de 230 mil toneladas em 2020/21 para apenas 72 mil toneladas em 2025/26.

Brasil ainda domina

A queda do consumo não significa que o Brasil tenha perdido importância na indústria de suco. Ao contrário, pois a produção brasileira de suco, expressa a 65° Brix, foi assim estimada pelo USDA:

2020/21: 944 mil t

2021/22: 1,135 milhão t

2022/23: 1,080 milhão t

2023/24: 829 mil t

2024/25: 1,013 milhão t

2025/26: 1,032 milhão t

Assim, o Brasil continua respondendo por parcela amplamente majoritária da produção mundial. Embora o mercado mundial de suco esteja encolhendo, o Brasil continua indispensável para seu abastecimento.

Essa combinação explica o comportamento dos preços nos últimos anos. De um lado, há menos consumidores de suco e, portanto, menor demanda estrutural. De outro, há menos laranja disponível, correspondendo a menor oferta de matéria-prima. Além disso, com estoques industriais baixos, há maior necessidade imediata de fruta.

Resultado: o mercado mundial de suco está encolhendo, mas o preço da laranja brasileira vem subindo porque a oferta diminuiu ainda mais rapidamente que a demanda industrial. O que mudou foi a rentabilidade potencial e o poder de negociação da fruta fresca, especialmente quando a indústria enfrenta escassez de matéria-prima. A laranja de mesa passou a disputar economicamente uma fruta que a indústria precisa cada vez mais em determinados momentos, enquanto o mercado mundial de suco apresenta uma tendência estrutural de retração.

Nova configuração de mercado?

A tendência mais importante para os próximos anos, segundo as várias fontes citadas, deve estar na mudança de equilíbrio entre duas forças simultâneas: de um lado, o mercado industrial continua sendo de longe o maior destino da produção; de outro, o mercado de mesa pode oferecer uma alternativa econômica importante, principalmente para variedades de frutas com características valorizadas pelo consumidor.

A diferença é que, enquanto a indústria compra grandes volumes e possui enorme capacidade de absorção, o mercado de mesa depende de qualidade, calibre, variedade, aparência, logística e comportamento do consumidor. Por isso, a expansão da laranja de mesa não deve ser medida apenas pela quantidade de toneladas que deixa de ir para a indústria. Deve ser medida também pelo valor obtido por tonelada, pela margem do produtor e pela capacidade de o mercado fresco competir economicamente pela fruta.

Essa questão, a propósito, vem sendo debatida em eventos do setor promovidos por entidades como a Associação Brasileira de Citros de Mesa (ABCM), sediada em Cordeirópolis (SP), no Centro de Citricultura Sylvio Moreira (IAC).  Um dos pontos que tem recebido maior ênfase diz respeito à urgência de fixação de padrões rígidos de classificação de frutos (em parceria com órgãos como CEAGESP), certificações de boas práticas agrícolas (como o programa de Limites Máximos de Resíduos – LMR) e estratégias de pós-colheita para mitigar perdas e garantir margens sustentáveis em meio à volatilidade macroeconômica. Adicionalmente, se houver um genuíno interesse dos produtores pelo aumento do consumo de frutas in natura, isso exigirá um esforço de marketing que até o momento tem sido pouco expressivo.

Conclusão

O cruzamento das séries de IBGE, Fundecitrus, CEPEA e USDA permite chegar a uma conclusão provisória bastante clara: a citricultura brasileira não está deixando de ser uma indústria de suco para se transformar numa citricultura de fruta fresca. O que está acontecendo é mais sutil: a queda estrutural do consumo mundial de suco coincide com uma redução da produtividade e da oferta de laranja no principal cinturão brasileiro, tornando a fruta mais escassa e mais valiosa tanto para a indústria quanto para o consumidor.Foto de abertura: imagem criada por IA (Google Gemini)

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