Combustível de aviação abre nova fronteira para cadeia da cana-de-açúcar

A regulamentação do Programa Nacional de Combustível Sustentável de Aviação (ProBioQAV), em agosto de 2026, abre novas perspectivas para a cadeia produtiva da cana-de-açúcar no Brasil. Além de criar condições para o desenvolvimento de um mercado de combustíveis de menor intensidade de carbono, a medida pode estimular investimentos em usinas, novas tecnologias industriais, produção de etanol e pesquisa agropecuária, com reflexos sobre toda a cadeia sucroenergética.

O programa foi instituído pela Lei do Combustível do Futuro, de 2024, e regulamentado pelo Decreto nº 13.094, de 12 de agosto de 2026. Seu objetivo é contribuir para a redução das emissões de gases de efeito estufa da aviação, estabelecendo metas para os operadores aéreos e regras para o desenvolvimento do mercado de combustível sustentável de aviação, conhecido pela sigla SAF (Sustainable Aviation Fuel).

Novas oportunidades

Para o setor sucroenergético brasileiro, uma das principais oportunidades está na produção de SAF a partir do etanol, por meio da rota tecnológica conhecida como Alcohol-to-Jet (ATJ). O processo transforma o álcool em componentes que podem ser utilizados na formulação de combustível para aeronaves, desde que atendam às especificações técnicas e aos critérios de sustentabilidade exigidos.

A perspectiva é relevante para o Brasil, que desenvolveu uma ampla estrutura de produção de etanol e acumulou experiência em tecnologia agrícola, industrialização da cana e aproveitamento de seus coprodutos. Com o estabelecimento de um marco regulatório para o SAF, essa infraestrutura poderá servir de base para novos investimentos e para a diversificação dos mercados atendidos pelo setor.

Mercado de bilhões de litros

O consumo brasileiro de querosene de aviação tem se situado na ordem de 6 bilhões a 7 bilhões de litros por ano, o que dá uma dimensão do mercado potencial para combustíveis sustentáveis. A substituição, mesmo parcial, do combustível fóssil poderá representar uma demanda adicional significativa, embora o volume efetivo de SAF necessário dependa das metas regulatórias, da disponibilidade do produto e da redução de emissões comprovada em cada rota de produção.

A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA) destaca o potencial da rota ATJ para ampliar a participação do etanol brasileiro nesse mercado. Em estimativa divulgada pela entidade, a produção de aproximadamente 1,2 bilhão de litros de SAF em 2037 exigiria cerca de 2 bilhões de litros de etanol como matéria-prima, considerando o cenário apresentado para atendimento à trajetória regulatória brasileira.

Essa demanda poderia abrir espaço para investimentos em unidades industriais especializadas, ampliar o mercado para as usinas existentes e estimular o desenvolvimento de tecnologias de conversão. Também criaria oportunidades para fornecedores de máquinas e equipamentos, empresas de engenharia, prestadores de serviços, centros de pesquisa e outros segmentos vinculados à produção e à distribuição de biocombustíveis.

O potencial, entretanto, não se limita à fabricação de SAF. A expansão desse mercado poderá reforçar a competitividade do etanol brasileiro, diversificar as receitas do setor e contribuir para posicionar o País como fornecedor internacional de combustíveis sustentáveis, desde que os custos de produção, a certificação e a logística permitam competir com outras opções energéticas.

Pesquisa ganha importância estratégica

Um dos possíveis desdobramentos dessa expansão está no campo. Se a demanda por etanol crescer de forma consistente, a capacidade de ampliar a produção de matéria-prima sem elevar proporcionalmente os custos e a área cultivada será ainda mais importante. Nesse cenário, o melhoramento genético da cana-de-açúcar poderá assumir papel estratégico.

O desenvolvimento de variedades mais produtivas, com maior teor de açúcares e melhor desempenho industrial, poderá contribuir para elevar a quantidade de etanol obtida por hectare. Ao mesmo tempo, características como resistência a pragas e doenças, tolerância ao déficit hídrico e adaptação a diferentes condições de solo e clima serão fundamentais para reduzir riscos, preservar a produtividade e aumentar a eficiência do sistema de produção.

O desafio é particularmente relevante diante das mudanças climáticas, que podem ampliar a frequência de períodos de seca e de temperaturas elevadas em regiões produtoras. Variedades capazes de manter um desempenho satisfatório sob condições ambientais adversas podem ajudar a estabilizar a oferta de matéria-prima e reduzir perdas agrícolas.

Outros avanços tecnológicos

A pesquisa também poderá avançar no desenvolvimento de cultivares adaptadas a diferentes ambientes de produção, sistemas de colheita e necessidades industriais. Ferramentas de biotecnologia, seleção genômica e outras técnicas de melhoramento podem contribuir para acelerar a identificação de características desejáveis, embora o desenvolvimento e a validação de novas variedades continuem exigindo tempo, experimentação e avaliação em condições reais de cultivo.

Instituições de pesquisa, universidades, empresas de melhoramento genético e produtores terão, portanto, oportunidades para ampliar a cooperação. O objetivo não será apenas produzir mais cana, mas obter ganhos de produtividade, reduzir custos, melhorar a resiliência das lavouras e aumentar a eficiência no uso de água, fertilizantes e defensivos.

Mais valor para a cana e seus coprodutos

A perspectiva de crescimento do SAF também reforça a importância do aproveitamento integral da cana-de-açúcar. Além do etanol destinado à conversão em combustível de aviação, o setor dispõe de alternativas para ampliar o valor econômico de resíduos e coprodutos, como o bagaço, a vinhaça e a torta de filtro.

Dependendo da tecnologia empregada, esses materiais podem contribuir para a produção de energia, biogás, biometano e outros produtos de origem renovável. Há também rotas de produção de SAF baseadas em matérias-primas distintas do etanol, como óleos e gorduras residuais, o que abre espaço para diferentes cadeias produtivas e soluções tecnológicas.

A diversificação poderá favorecer modelos industriais mais integrados, nos quais a produção de açúcar, etanol, bioeletricidade e outros produtos compartilhe infraestrutura e aproveite melhor os recursos disponíveis. Para as usinas, isso representa uma oportunidade de avaliar novos investimentos e ampliar a receita por unidade de matéria-prima processada.

É importante, contudo, que a expansão seja acompanhada de critérios rigorosos de sustentabilidade. A redução das emissões precisa ser demonstrada ao longo do ciclo de vida do combustível, considerando produção agrícola, processamento industrial, transporte e demais etapas. A ampliação da oferta também deverá observar a disponibilidade de recursos naturais e evitar pressões indevidas sobre áreas de vegetação nativa e sobre a produção de alimentos.

Redução de emissões e competitividade

A principal justificativa ambiental para o desenvolvimento do SAF é a possibilidade de reduzir as emissões de gases de efeito estufa da aviação em comparação com o querosene fóssil. O benefício varia conforme a matéria-prima, a tecnologia industrial e a energia utilizada no processo. Em determinadas rotas, a redução pode ser expressiva, mas não deve ser tratada como um percentual uniforme aplicável a qualquer combustível.

Para o Brasil, a combinação entre disponibilidade de biomassa, experiência na produção de etanol e capacidade de pesquisa oferece condições favoráveis para disputar espaço nesse mercado. A concretização dessa oportunidade dependerá, porém, da implantação de unidades industriais, do acesso a financiamento, da evolução tecnológica e da competitividade do produto final.

A regulamentação do ProBioQAV cria um horizonte de demanda e estabelece condições para o desenvolvimento do mercado. Não significa, por si só, que todo o querosene consumido no País será substituído por SAF, nem garante que a produção brasileira será automaticamente competitiva. O avanço dependerá da capacidade de transformar as oportunidades regulatórias em projetos viáveis, com oferta regular, custos adequados e benefícios ambientais comprovados.

Nova etapa para a cadeia sucroenergética

Como conclusão, pode-se afirmar que a perspectiva de utilização do etanol na produção de combustível sustentável de aviação amplia o horizonte de negócios da cana-de-açúcar. Além de atender aos mercados tradicionais de açúcar, etanol e bioenergia, o setor poderá participar de uma cadeia industrial de maior complexidade tecnológica e valor agregado.

Essa transformação poderá repercutir sobre a indústria, a logística, a pesquisa científica e a produção agrícola. No campo, a busca por variedades mais produtivas, resistentes a pragas e doenças e adaptadas a condições climáticas adversas será um dos caminhos para sustentar a expansão com eficiência e menor pressão sobre os recursos naturais.

O SAF, assim, representa mais do que uma nova aplicação para o etanol. Se o mercado se consolidar e os investimentos acompanharem a demanda, poderá se tornar um fator adicional de modernização da cadeia sucroenergética brasileira.

Imagem de abertura: criada por IA (ChatGPT)

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