Brasil mantém recordes de receita na exportação de carne bovina
O desempenho das exportações brasileiras de carne bovina em setembro de 2026 refletiu um momento de transição e reacomodação de mercado, enquanto o acumulado do ano permanece em patamares recordes de faturamento. De acordo com dados da Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras de Carne (Abiec), o Brasil embarcou 229,3 mil toneladas em setembro, com quedas de 1,8% sobre o mês anterior e de 35% a 40% na comparação com setembro de 2025 (período de volume atipicamente elevado).
A diminuição do ritmo de compras por parte da China, em função da cota de importação que impôs, foi o principal gargalo para o escoamento da produção brasileira em setembro. Em contrapartida, houve crescimento expressivo nas vendas para os Estados Unidos e avanços consistentes nas importações do Chile e da Rússia.
Apesar do menor volume mensal, o preço médio praticado no mercado internacional manteve-se aquecido, atingindo US$ 6,28/kg, com alta de 11,9% em comparação com setembro de 2025, ajudando a amortecer o impacto sobre a receita no mês.
Valores acumulados
Nos primeiros nove meses de 2026, o volume total de carne bovina embarcada para o mercado externo alcançou 2,43 milhões de toneladas, mantendo estabilidade virtual em relação às 2,44 milhões de toneladas embarcadas no mesmo período de 2025.
O faturamento acumulado no período atingiu um recorde histórico para o período, de aproximadamente US$ 14,17 bilhões, representando um crescimento de 14,1% frente ao mesmo período de 2025.
A carne bovina in natura respondeu por aproximadamente 85% de todo o volume e da receita das exportações do setor no período.
Principais destinos
A dinâmica dos principais destinos das exportações brasileiras de carne bovina em setembro e no acumulado de janeiro a setembro de 2026 foi marcada pelo peso histórico da China e por uma forte guinada nas vendas para os Estados Unidos.
Outros dois mercados que se destacaram na importação da carne bovina brasileira foram o Chile e a Rússia.
Uma breve análise desses quatro principais mercados é apresentada a seguir.
China
A China manteve-se de forma isolada como principal destino da carne bovina brasileira. Nos nove primeiros meses do ano, importou 912 mil toneladas. Em setembro, houve uma retração acentuada no seu ritmo de compras, o que pesou diretamente sobre o volume total exportado pelo Brasil no mês.
A perspectiva para as exportações brasileiras de carne bovina à China no quarto trimestre de 2026 é de forte retração, com embarques comercialmente muito mais difíceis e redirecionamento de parte da produção para outros mercados. O esgotamento da cota não significa uma proibição absoluta de importar carne brasileira, mas altera radicalmente as condições econômicas do negócio.
A situação já se materializou: em 29 de setembro, a China confirmou que o Brasil havia atingido sua cota anual de 1,106 milhão de toneladas. A partir de outubro, os volumes excedentes passaram a estar sujeitos a uma tarifa adicional de 55%, além da alíquota regular de 12%, elevando a tributação total a 67%. Esse nível de tributação praticamente inviabiliza as vendas de carne bovina para o mercado chinês até dezembro.
Estados Unidos
Em setembro, os Estados Unidos registraram um salto espetacular nas compras de carne bovina do Brasil em relação a setembro de 2025. O país importou 48,3 mil toneladas, o que representou uma disparada impressionante de 389% em volume, correspondendo a uma alta igualmente expressiva de 333,8% em faturamento, que alcançou US$ 313,8 milhões.
Esse avanço se explica principalmente pela oferta interna restrita de gado nos EUA, com o rebanho norte-americano em ciclo de retenção, abrindo espaço robusto para a proteína brasileira suprir o mercado industrial e de consumo dos norte-americanos.
A carne bovina brasileira exportada para os EUA tem um destino particularmente importante: a produção de hambúrgueres e de carne moída. Uma parcela expressiva é constituída por aparas bovinas congeladas (beef trimmings), que são combinadas com carne de origem norte-americana (cujo teor de gordura é mais alto) para produzir misturas com as características desejadas.
O mercado norte-americano de hambúrgueres é colossal. São consumidos no país 50 bilhões de unidades por ano, o que significa que, em média, cada norte-americano come três hambúrgueres por semana.
Chile
O mercado chileno consolidou em setembro e 2026 sua posição de destaque entre os compradores da América do Sul. O Brasil embarcou 19,4 mil toneladas para o país, registrando um crescimento de 87,2% em volume e gerando uma receita de US$ 117,5 milhões (alta de 107,7%) em relação ao mesmo período do ano anterior.
O mercado chileno se destaca pela compra de carne bovina desossada, especialmente resfriada, além de volumes relevantes de carne congelada.
Entre os cortes que merecem atenção comercial estão: alcatra e contrafilé (valorizados para bifes e preparações grelhadas), patinho, coxão mole e coxão duro (utilizados em bifes, assados e preparações do dia a dia) e acém, paleta e outros cortes do dianteiro (importantes para preparações cozidas e produtos de maior competitividade de preço).
Rússia
As exportações destinadas ao mercado russo em setembro de 2026 somaram 13,1 mil toneladas, com alta de 20,5% em volume em relação a setembro de 2025. A receita correspondente foi de US$ 66,5 milhões (crescimento de de 40,2%), demonstrando uma demanda estável com preços firmes.
O perfil de consumo russo é mais associado à carne bovina congelada e desossada, destinada tanto à distribuição comercial quanto à indústria de alimentos.
Nesse mercado, destacam-se comercialmente os seguintes cortes: acém e paleta (cortes do dianteiro que podem ser utilizados em preparações industriais), recortes e carne com diferentes teores de gordura (utilizados como matéria-prima para hambúrgueres, embutidos e outros produtos cárneos) e outros cortes desossados congelados.
Novos mercados em ascensão
As exportações brasileiras de carne bovina em 2026 revelam a conquista de novos mercados estratégicos, bem como a aceleração nos embarques a esses destinos. Isso se deve às ações de promoção comercial lideradas pelo programa Brazilian Beef (iniciativa da Abiec em parceria com a ApexBrasil).
Os mercados que mais se destacaram com taxas expressivas de crescimento nos embarques foram os seguintes:
1. América do Norte e Caribe. O Canadá, cujas importações aumentaram 870,7% em setembro, uma das maiores altas percentuais nas vendas de carne brasileira, tem buscado proteína bovina no Brasil para suprir gargalos de oferta e custos na cadeia de suprimentos norte-americana. Por seu lado, o México vem se consolidando como uma praça em expansão acelerada após a abertura sanitária e missões comerciais recentes, consolidando-se como importante rota na América do Norte, alternativa aos EUA. No Caribe, a Jamaica, embora seja um pequeno importador no cenário global, se destacou em 2025, importando cerca de 2.700 toneladas de carne bovina brasileira.
2. Sudeste Asiático. A Indonésia (com importações 822% maiores em setembro) tem uma população de mais de 275 milhões de habitantes, dos quais 229 milhões são muçulmanos, o maior contingente dessa religião no mundo, que só consume proteína animal com certificação Halal. Isso coloca o Brasil em vantagem, pois é o maior exportador mundial de alimentos com essa certificação, liderando as vendas de carne de frango e bovina para os países de maioria muçulmana. A Malásia e as Filipinas também se destacam. A estreia do setor exportador de carne bovina em grandes feiras locais, como a Food & Drinks Malaysia, ampliou a inserção da carne brasileira na região, atendendo tanto ao mercado consumidor interno quanto à indústria de alimentos pré-processados.
3. Oriente Médio e Eurásia. A Turquia aumentou significativamente as aquisições de carne bovina do Brasil (com importações 129,5% maiores em setembro), impulsionada por gargalos na produção local e pelos preços competitivos do produto brasileiro. Adicionalmente, a Arábia Saudita consolidou-se como um dos principais pilares do mercado Halal, com importações de carne brasileira +35,8% maiores em setembro.
Embora esses destinos ainda adquiram um volume absoluto menor em comparação com o patamar gigantesco da China, o forte crescimento desses mercados alternativos é considerado fundamental pela indústria brasileira para reduzir a dependência de um único comprador e absorver oscilações pontuais no fluxo de embarques globais.
Foto de abertura: BeefPoint
