Agentes biológicos têm papel cada vez mais relevante no controle do HLB

O controle biológico tem adquirido importância cada vez maior no controle do HLB ou greening, a mais destrutiva doença da citricultura mundial. No Brasil, ao longo dos últimos 20 anos, a pesquisa avançou em três frentes simultâneas: parasitoides, principalmente a vespa Tamarixia radiata; fungos entomopatogênicos, como Isaria fumosorosea e Beauveria bassiana; e, mais recentemente, bactérias entomopatogênicas e predadores.

Em paralelo, passaram a ser adotadas novas estratégias de manejo integrado, além da erradicação de plantas contaminadas, especialmente quando jovens, e plantio de mudas sadias, desenvolvidas em ambientes protegidos.

Ao longo dessas duas décadas de estudos, houve uma significativa mudança de conceito. No início, a meta era buscar formas de controlar o psilídeo sem usar inseticidas químicos. Mais recentemente, o eixo da pesquisa se deslocou, buscando desenvolver métodos para manter a população do psilídeo abaixo do nível que permita a disseminação do HLB, usando várias ferramentas simultaneamente.

Há um detalhe especialmente interessante: boa parte das soluções mais promissoras foi estudada, selecionada, desenvolvida e testada no próprio cinturão citrícola de São Paulo e Minas Gerais, envolvendo universidades públicas, em especial ESALQ/USP e UNESP, órgãos de pesquisa como o Instituto Agronômico (IAC), o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus), organizações ligadas à produção agrícola e empresas privadas. Essa união de esforços transformou o controle biológico do psilídeo em um notável estudo de caso de inovação cooperativa, envolvendo atores de toda a cadeia citrícola.

Vespa foi primeira inimiga natural

O primeiro grande eixo de pesquisa foi o controle biológico clássico do psilídeo com a vespa Tamarixia radiata. Os primeiros trabalhos foram iniciados em 2004, na ESALQ/USP, imediatamente após a confirmação do HLB no Brasil, sob a liderança do professor José Roberto Postali Parra, em parceria com o Fundecitrus. Este órgão, com base nesse trabalho, desenvolveu técnicas de criação em massa da vespa, instalou uma biofábrica, inaugurada em 2015, e passou a liberar a vespa principalmente em pomares abandonados, áreas urbanas, chácaras e locais com murta, visando reduzir a população de psilídeos que poderiam migrar para os pomares comerciais. Segundo pesquisas da entidade, com esse método, nessas áreas foi observada uma redução média de 70% da população do psilídeo, com picos superiores a 90%.

Fungos entram em cena

O segundo salto ocorreu com os fungos entomopatogênicos, tendo como exemplo mais emblemático o Isaria fumosorosea, resultado de aproximadamente sete anos de pesquisa conduzida pelo professor Ítalo Delalibera Jr., na ESALQ/USP, em parceria com o Fundecitrus e a empresa Koppert. Isso permitiu a esta empresa colocar no mercado, em 2017/2018, o primeiro bioinseticida brasileiro especificamente destacado para o controle do psilídeo.

A partir daí, houve uma diversificação muito rápida, com o registro de novos fungos, como Isaria javanica e Beauveria bassiana. Também foram lançadas combinações de fungos, bactérias (como Pseudomonas chlororaphis e Pseudomonas fluorescens) e, mais recentemente, o inseto predador Chrysoperla externa.

Líderes do esforço de pesquisa

A pesquisa continua em curso, envolvendo grande número de participantes, por meio da interação entre órgãos públicos de pesquisa, entidades setoriais e indústria privada. Os principais atores desse esforço são:

  • ESALQ/USP – É provavelmente o principal núcleo acadêmico brasileiro dedicado ao controle do HLB, com os professores José Roberto Postali Parra, Ítalo Delalibera Jr. e outros pesquisadores trabalhando com Tamarixia, criação de inimigos naturais e fungos entomopatogênicos.
  • Fundecitrus – Transformou pesquisa em tecnologia de campo, mantendo laboratório de controle biológico, biofábrica de Tamarixia e pesquisas de manejo integrado. A instituição também trabalha com repelência, feromônios e estratégias para reduzir a infecção primária.
  • Koppert – Empresa de origem holandesa protagonista no desenvolvimento e na comercialização do primeiro bioinseticida brasileiro, desenvolvido em parceria com ESALQ/USP e o Fundecitrus.
  • Bayer Cropscience – Empresa de origem alemã, presente no Brasil há 130 anos, com papel importante no financiamento e no apoio à biofábrica de Tamarixia do Fundecitrus, por meio da parceria Citrus Unidos.
  • Ballagro – Empresa brasileira, fundada em 2004, desenvolveu e comercializa tecnologias baseadas em fungos, incluindo combinações de Beauveria e Isaria.
  • Bionat – Empresa brasileira criada em 2019, entrou no mercado com um biofungicida à base de Beauveria bassiana.
  • Biotrop (à qual foi integrada a Total Bio) – Empresa brasileira, fundada em 2018, com importante papel no desenvolvimento da combinação das bactérias Pseudomonas chlororaphis + Pseudomonas fluorescens.
  • Syngenta Biologicals – A empresa, originária da italiana Vallagro, hoje sob controle da estatal chinesa Sinochem Holdings Corporation Ltd., produz em escala um inseticida microbiológico à base da combinação de bactérias desenvolvida pela Biotrop.
  • Vittia – Empresa brasileira fundada em 1971, mantém biofábrica do inseto predador Chrysoperla externa.

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