Produtores devem estar preparados para os efeitos do El Niño

O El Niño deve ter impactos significativos na região Sudeste ao longo de todo o segundo semestre de 2026 e o início de 2027. É o que preveem meteorologistas de órgãos oficiais como o Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), o Instituto Nacional de Pesquisas Especiais (Inpe) e o Centro Nacional de Monitoramento e Alertas de Desastres Naturais (Cemaden).

Esse fenômeno ocorre a cada dois a sete anos em razão do aquecimento das águas do Oceano Pacífico equatorial. Em consequência, a previsão para a região Sudeste é de temperaturas acima da média e maior propensão a períodos prolongados de calor intenso, com temperaturas 1 oC ou mais acima da média.

Diferentemente do que está previsto para a região Sul, onde o El Niño deve gerar chuvas volumosas e contínuas, e para as regiões Norte e Nordeste, com a probabilidade de secas mais firmes, o Sudeste atua como área de transição climática. Com isso, particularmente em São Paulo e no sul de Minas Gerais, a tendência é de precipitações mais frequentes na primavera/verão.

Nesse período, frentes frias e a umidade podem deflagrar temporais intensos e acumulados expressivos em curtos intervalos de tempo. As pancadas de chuva tendem a vir acompanhadas de rajadas de vento fortes e quedas de granizo pontuais. Para evitar surpresas, a recomendação é acompanhar regularmente os boletins de curto prazo do Centro de Previsão de Tempo e Estudos Climáticos do Inmet (CPTEC).

Gestão climática

A gestão climática deve ser integrada à administração da propriedade, exigindo dos produtores acompanhamento diário das previsões meteorológicas, utilização de aplicativos de monitoramento climático (há várias agtechs atuantes nesse segmento, com sistemas para uso em celulares) e registro dos volumes da chuva na propriedade.

Vale ressaltar que, nos últimos anos, plataformas digitais e soluções de agricultura de precisão passaram a desempenhar papel importante nesse cenário. Sensores de umidade do solo, imagens de satélite, estações meteorológicas automáticas, drones e modelos de inteligência artificial ajudam a antecipar riscos, orientar o momento ideal para aplicações de defensivos e fertilizantes, programar a colheita e reduzir perdas causadas por chuvas torrenciais. Essas ferramentas têm se tornado cada vez mais acessíveis também para pequenos e médios produtores, contribuindo para decisões mais rápidas e baseadas em dados.

É igualmente importante revisar os seguros agrícolas contratados, verificando se contêm cláusulas para cobertura de danos causados por chuvas.

Para completar, é preciso manter um plano de contingência para eventos extremos, ou seja, um conjunto de medidas previamente definidas para reduzir perdas quando ocorrerem chuvas excessivas, enchentes, ventos fortes, granizo, estiagens localizadas ou outras consequências do El Niño, visando substituir a reação improvisada por um protocolo de ação.

Estratégia recomendada

Com a perspectiva de um período de chuvas mais intensas, os produtores rurais devem preparar-se não apenas para evitar perdas imediatas, mas também para reduzir impactos sobre a produtividade, a saúde animal e a integridade do solo. O excesso de precipitação favorece erosão, lixiviação de nutrientes, doenças fúngicas e bacterianas, além de dificultar operações mecanizadas.

A estratégia mais eficaz nesse cenário é combinar prevenção, monitoramento constante e planejamento operacional. Está comprovado que propriedades que investem em conservação do solo, drenagem, sanidade vegetal e animal e gestão climática tendem a reduzir expressivamente os prejuízos e a recuperar mais rapidamente sua capacidade produtiva após eventos extremos.

Cuidados com o solo

O solo é o ativo mais valioso do produtor rural. Sua conservação é prioritária, uma vez que áreas descobertas ou mal manejadas sofrem erosão rapidamente.

Os principais cuidados devem incluir: manter cobertura vegetal ou palhada, revisar terraços, curvas de nível e canais de drenagem, recuperar áreas com sulcos erosivos antes do início das chuvas e evitar preparo excessivo do solo.

Os cuidados ainda devem considerar a drenagem de áreas encharcadas após as chuvas, pois estas reduzem a oxigenação das raízes. Nesse sentido, é essencial limpar canais e valetas, verificar saídas de água e corrigir pontos de acúmulo de água. Em hortaliças e culturas perenes, a drenagem adequada pode representar a diferença entre uma safra normal e perdas significativas.

Nutrição das plantas

A capacidade de nutrição das lavouras, ou seja, os teores de nutrientes que o solo contém, é outro cuidado essencial. Chuvas intensas aumentam a lixiviação, principalmente de nitrogênio e potássio, o que requer monitoramento periódico do estado nutricional da área a ser cultivada, parcelamento das adubações quando possível e evitar aplicação de fertilizantes antes de chuvas muito fortes previstas.

Uso de máquinas

No que diz respeito ao uso de máquinas agrícolas, é recomendável evitar operações em solo muito úmido, para evitar compactação.

Infraestrutura da propriedade

Muitas perdas ocorrem não na lavoura, mas na logística. Isso quer dizer que vale revisar as condições de pontes, bueiros, estradas internas, caixas de contenção, barragens, reservatórios, cercas e sistemas de irrigação, entre outras instalações.

Controle fitossanitário

Outra questão fundamental relacionada a chuvas intensas é a ocorrência de doenças e pragas. Várias delas são favorecidas pela umidade elevada, dentre as quais ferrugens, manchas foliares, antracnoses, mofo branco, míldios e podridões radiculares.

Isso requer intensificação do monitoramento, emprego de programas preventivos de aplicação de fungicidas tecnicamente indicados para a cultura e os respectivos fungos e rápida eliminação dos focos iniciais.

As providências variam de cultura para cultura. Considerando as atividades a que se dedicam os cooperados da Credicitrus, merecem maior atenção os pontos a seguir:

Cafeicultura – As doenças mais comuns em períodos mais úmidos são cercosporiose, ferrugem, phoma (em regiões frias) e podridões radiculares. Também é importante conservar estradas internas, proteger carreadores e manter boa drenagem dos talhões.

Citricultura –O excesso de água nos pomares favorece a gomose causada por Phytophthora, podridões de raízes, queda de frutos e dificuldade de pulverizações. É essencial evitar encharcamento próximo ao tronco e manter boa drenagem.

Cana-de-açúcar – Os principais riscos são erosão entre linhas, compactação causada por máquinas, atraso na colheita e perdas logísticas. Considerando essas possibilidades, o planejamento da colheita ganha importância maior.

Grãos (soja, milho, feijão) – Entre os principais cuidados a observar, destacam-se o acompanhamento das previsões meteorológicas, o ajustamento da época de semeadura (tanto quanto possível), o monitoramento de doenças foliares e a avaliação da necessidade de reaplicações após chuvas intensas.

Pecuária bovina – O excesso de chuvas aumenta diversos riscos para os rebanhos. No que diz respeito às pastagens, é necessário evitar superpastejo, preservar a cobertura vegetal, recuperar áreas encharcadas e manter boa drenagem, uma vez que pastagens degradadas sofrem erosão rapidamente. Quanto à sanidade dos animais, a maior umidade favorece mastite em vacas leiteiras e, tanto em animais de corte quanto de leite, podridões de casco, verminoses, carrapatos e moscas. Para completar, aconselha-se verificar cobertura de galpões, drenagem de currais, pisos antiderrapantes, limpeza das instalações e áreas para armazenamento de ração (rações úmidas favorecem fungos e produção de micotoxinas).

Avicultura e suinocultura – Embora, nestas atividades,os animais normalmente permaneçam confinados, as chuvas exigem atenção para ventilação adequada, controle da umidade interna, manutenção dos sistemas elétricos, funcionamento de geradores e armazenamento seco de ração.

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