Balanço semestral do agro foi marcado por recordes e preocupações
Um cenário de contrastes. Assim foi o primeiro semestre de 2026 para o agronegócio brasileiro. Enquanto as exportações, a produção e alguns segmentos industriais atingiram níveis históricos, os produtores rurais enfrentaram um ambiente de rentabilidade pressionada por juros e custos de produção elevados, preços internacionais mais baixos para diversas commodities e restrições ao crédito.
No lado positivo, o principal destaque foi o desempenho das exportações. Dados do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA) mostram que as exportações de produtos agropecuários alcançaram US$ 87 bilhões de janeiro a junho, maior valor já registrado para um primeiro semestre. O crescimento foi sustentado principalmente pelas vendas de carnes, soja e algodão, compensando a queda dos preços internacionais de produtos como açúcar e café.
A China permaneceu como principal destino das exportações do agro brasileiro, posição que ocupa desde 2013, ano em que superou os Estados Unidos e a União Europeia nessa classificação.
Novos mercados
Também contribuiu para o bom desempenho externo a contínua abertura de mercados internacionais, graças sobretudo aos esforços da Agência Brasileira de Promoção de Exportações e Investimentos (ApexBrasil). Somente no primeiro trimestre de 2026, o Brasil conquistou acesso a 30 novos mercados para produtos agropecuários, ampliando as oportunidades para carnes, frutas, produtos florestais e outros segmentos. Isso reflete uma tendência que vem ganhando expressão nos últimos cinco anos (2021 ao final do primeiro semestre de 2026), considerando os principais segmentos agropecuários em que atuam os produtores rurais associados à Credicitrus.
Os principais mercados abertos desde 2021 para produtos específicos foram os seguintes:
Açúcar – Bangladesh e Paquistão;
Café – Egito, Índia (café torrado), Jordânia e Zâmbia;
Carne bovina – Canadá, El Salvador, Estados Unidos (miúdos bovinos), Filipinas, Japão (miúdos bovinos), México e Singapura (extrato de carne);
Etanol – Filipinas e Índia;
Milho – China, Filipinas, Indonésia e Vietnã;
Soja – Arábia Saudita, China (farelo de soja), Egito, Paquistão e Vietnã;
Suco de laranja – Índia e Vietnã.
Produtos menos tradicionais
Produtos que tradicionalmente têm tido menor peso na pauta de exportações brasileira também conquistaram novos mercados de 2021 a 2026, sendo os principais destinos os seguintes:
- Frutas frescas (manga, uva, maçã, abacate, limão Tahiti e frutas cítricas) – mercados da Ásia, do Oriente Médio e da América do Norte;
- Material genético animal (sêmen e embriões principalmente de bovinos de corte) – Argentina, Azerbaijão e El Salvador;
- Mel e produtos apícolas – México, Chile, Coreia do Sul, Marrocos, Peru, Arábia Saudita e Jordânia;
- Pescados – Emirados Árabes Unidos, Angola e outros mercados africanos. As principais espécies exportadas foram tilápia (em primeiro lugar destacado), tambaqui, pirarucu, pintado e surubim, além de camarão cultivado;
- Produtos lácteos – Colômbia, Emirados Árabes Unidos e Peru;
- Sementes e mudas – Etiópia e outros países africanos, que vêm adquirindo uma grande variedade de material propagativo certificado de espécies desenvolvidas pelas instituições de pesquisa agronômica, como Embrapa e Instituto Agronômico (IAC). Isso inclui grãos (soja, milho e algodão), hortaliças (tomate, cebola, cenoura, alface e pimentão), frutas (citros, videira, banana, manga e abacate), espécies florestais (eucalipto e pinus), plantas ornamentais, cana-de-açúcar e café.
Dificuldades
O primeiro semestre de 2026 também foi marcado por dificuldades importantes. A principal delas foi a manutenção da taxa Selic em patamar elevado, aumentando o custo do crédito rural e reduzindo a capacidade de investimento dos produtores. Em sua avaliação para 2026, a Confederação de Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) alerta que o ambiente financeiro continuou pressionando as margens do setor, especialmente em atividades altamente dependentes de financiamento.
As entidades também apontaram que a queda dos preços internacionais de várias commodities reduziu a rentabilidade dos produtores, mesmo diante de volumes recordes de produção. O próprio Ministério da Agricultura observou que o crescimento das exportações ocorreu graças ao maior volume embarcado, enquanto os preços médios de produtos como açúcar, milho, farelo de soja e café apresentaram retração.
Outro fator de preocupação foi o elevado endividamento de parte dos produtores rurais. A Associação Brasileira dos Produtores de Soja (Aprosoja) defendeu medidas emergenciais para reestruturação das dívidas e criticou as dificuldades de acesso ao crédito, argumentando que juros elevados, sucessivas adversidades climáticas e redução da renda agrícola comprometeram a capacidade de pagamento de muitos produtores.
No texto a seguir é resumida a avaliação feita pelas principais entidades representativas do agro brasileiro quanto ao desempenho do setor no semestre, em relação particularmente aos segmentos em que os cooperados da Credicitrus atuam.
Soja e milho
Na cadeia da soja, a Associação Brasileira das Indústrias de Óleos Vegetais (Abiove) revisou para cima suas projeções ao longo do semestre e apontou recorde no processamento doméstico da oleaginosa, impulsionado pela grande safra e pela demanda crescente por farelo e óleo, agregando mais valor à produção nacional.
Na cadeia do milho, o principal aspecto positivo foi a confirmação de mais uma grande safra brasileira. A Companhia Nacional de Abastecimento (Conab) elevou sucessivamente suas estimativas de produção ao longo do semestre, apontando uma colheita próxima de recorde, impulsionada pelo excelente desempenho da segunda safra (“safrinha”), especialmente em Mato Grosso, Goiás, Paraná e Mato Grosso do Sul. O aumento da produtividade refletiu condições climáticas favoráveis em grande parte das regiões produtoras e o elevado nível tecnológico das lavouras. Esse aumento da oferta, entretanto, trouxe um efeito colateral. A Associação Brasileira dos Produtores de Milho e Sorgo (Abramilho) observou que os preços internos permaneceram pressionados durante boa parte do semestre, reduzindo as margens dos produtores.
Pecuária
Outro aspecto favorável foi o desempenho de parte da pecuária. A Confederação da Agricultura e Pecuária do Brasil (CNA) destacou margens positivas na atividade pecuária, beneficiadas pela firme demanda internacional e pelos bons preços da carne bovina e de frango. A entidade e a Associação Brasileira das Indústrias Exportadoras da Carne (Abiec) também comemoraram o reconhecimento da China ao Brasil como país livre de febre aftosa sem vacinação, medida considerada estratégica para ampliar mercados de maior valor agregado.
Citros
Na citricultura, a avaliação predominante foi de cauteloso otimismo. A Associação Nacional dos Exportadores de Sucos Cítricos (CitrusBR) destacou que a demanda internacional por suco de laranja brasileiro permaneceu firme, sustentando as exportações e consolidando o Brasil como principal fornecedor mundial. Em contrapartida, o Fundo de Defesa da Citricultura (Fundecitrus) reforçou que o greening (HLB) permanece como o maior desafio estrutural da citricultura brasileira. Segundo a instituição, apesar dos avanços no manejo integrado e da maior conscientização dos produtores sobre a eliminação de plantas doentes e o controle do psilídeo Diaphorina citri, vetor da doença, esta continua avançando em diversas regiões do cinturão citrícola de São Paulo e do Triângulo Mineiro, exigindo investimentos permanentes em monitoramento, renovação de pomares e pesquisa.
Café
Na cafeicultura, a percepção foi mais favorável. O Conselho dos Exportadores de Café do Brasil (Cecafé) destacou o forte desempenho das exportações brasileiras de café, impulsionadas pela elevada demanda internacional e pela competitividade do produto nacional. Mesmo com oscilações nos embarques em alguns meses, a receita cambial permaneceu elevada em razão das cotações historicamente altas do café no mercado internacional.
A Associação Brasileira da Indústria de Café (ABIC), por sua vez, avaliou que o consumo interno continuou resiliente, embora o setor tenha enfrentado forte pressão de custos decorrente da valorização da matéria-prima. A entidade alertou que o aumento dos preços do café verde acabou sendo parcialmente repassado ao consumidor, tornando o café um dos alimentos com maior inflação no período.
Cana-de-açúcar
O setor sucroenergético apresentou um dos cenários mais equilibrados do agronegócio. A União da Indústria de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (UNICA) avaliou positivamente o desempenho das usinas no Centro-Sul, destacando a elevada produção de etanol, especialmente o derivado do milho, e a continuidade da demanda por biocombustíveis favorecida pela política de descarbonização.
Porém, a entidade chamou atenção para a queda nas cotações internacionais do açúcar ao longo do semestre, reduzindo parte da rentabilidade das exportações. Além disso, as usinas continuaram enfrentando custos elevados de financiamento em razão da manutenção da taxa Selic em níveis altos.
Outro aspecto positivo apontado pela UNICA foi a expansão dos investimentos em eficiência industrial, cogeração de energia elétrica a partir do bagaço da cana e produção de biometano e combustíveis de baixo carbono, reforçando a diversificação das receitas do setor.
Foto de abertura: Aprosoja
