NR-1 requer atenção de todos os produtores rurais

NR-1 não é praga, nem doença, nem infortúnio climático. Porém, pode causar problemas aos produtores rurais que não estiverem atentos aos seus efeitos. Trata-se da Norma Regulamentadora nº 1, baixada pelo Ministério do Trabalho e Emprego (MTE), que traz as disposições gerais sobre segurança e saúde no trabalho.

Essa norma foi atualizada em 26 de maio de 2026, pela Portaria MTE nº 1.419, que tornou obrigatória a inclusão dos riscos psicossociais (além dos riscos físicos, químicos, biológicos e ergonômicos) no Gerenciamento de Riscos Ocupacionais (GRO) e no Programa de Gerenciamento de Riscos (PGR) de todas as empresas, em qualquer ramo de atividade.  A norma atualizada entra em vigor oficialmente em 26 de maio de 2026, quando terá início a fiscalização com possibilidade de aplicação de penalidades administrativas.

As empresas que não incluírem os fatores de risco psicossocial no PGR podem receber multas que chegam a R$ 6.708,08 por trabalhador exposto. Além disso, a ausência de gestão de riscos psicossociais pode ser usada como prova em ações trabalhistas. Um PGR incompleto é considerado inválido, podendo gerar novas penalidades e, em casos extremos, quando a organização do trabalho representar ameaça à saúde, o MTE pode determinar paralisação de suas atividades.

Vale a pena cumprir a NR-1. De um lado, evita possíveis autuações, ações trabalhistas por danos morais. afastamentos por adoecimento mental e aumento de custos com rotatividade. Por outro lado, proporciona ganhos consideráveis, como redução de acidentes, menor absenteísmo, melhor clima organizacional e aumento de produtividade.

O que são riscos psicossociais?

Riscos psicossociais são fatores relacionados à organização do trabalho e às relações interpessoais que podem afetar a saúde mental, emocional e física do trabalhador. Os principais são: excesso de jornada ou ritmo intenso; trabalho sob forte pressão; falta de clareza nas funções; assédio moral; conflitos interpessoais; isolamento social (muito comum em áreas rurais); e insegurança no emprego.

Esses problemas aparecem em praticamente todos os setores, mas ganham características próprias em ambientes de alta pressão, como a agropecuária, na qual algumas causas típicas são: sazonalidade e picos de trabalho (plantio/colheita); moradia no local de trabalho; distância de centros urbanos; gestão familiar pouco estruturada; e convívio prolongado entre equipes.

A norma atualizada exige que o GRO e o PGR:

  1. identifiquem os fatores psicossociais (sobrecarga, metas irrealistas, assédio, falta de autonomia, conflitos, isolamento etc.);
  2. avaliem esses fatores com métodos reconhecidos, como o COPSOQ‑BR, que é a versão brasileira do Copenhagen Psychosocial Questionnaire, um questionário científico criado na Dinamarca para avaliar riscos psicossociais no trabalho;
  3. registrem esses fatores no Inventário de Riscos Ocupacionais;
  4. Planejem ações de prevenção e controle no PGR; e monitores e revisem esse material periodicamente.

Problemas e sintomas

Os principais problemas mentais e emocionais observados no trabalho são estresse, ansiedade, burnout, depressão, conflitos interpessoais e impacto do assédio moral, explicados brevemente a seguir.

Estresse ocupacional

Ocorre quando as demandas ultrapassam a capacidade de resposta do trabalhador. Sintomas: irritabilidade, queda de produtividade, dificuldade de concentração, tensão muscular, fadiga constante, erros frequentes.

Ansiedade relacionada ao trabalho

Geralmente está ligada a metas agressivas, insegurança profissional ou sobrecarga. Sintomas: preocupação excessiva, sensação de alerta constante, insônia, aceleração cardíaca, dificuldade de tomar decisões.

Burnout (esgotamento profissional)

É um estado de exaustão física e emocional causado por estresse crônico. Sintomas: exaustão extrema, cinismo ou indiferença, sensação de ineficácia, queda brusca de desempenho, isolamento.

Depressão associada ao ambiente de trabalho

Pode ser desencadeada por conflitos, falta de reconhecimento ou clima tóxico. Sintomas: tristeza persistente, perda de interesse, apatia, baixa energia, alterações no sono e apetite.

Conflitos interpessoais crônicos

Quando não resolvidos, geram desgaste emocional e clima hostil. Sintomas: discussões frequentes, fofocas, formação de “panelinhas”, queda de colaboração, aumento de erros e retrabalho. Os principais causadores de conflitos são:

  • Diferenças culturais e educacionais – em equipes formadas por trabalhadores, técnicos, gestores e consultores internos podem ocorrer ruídos de comunicação, interpretações equivocadas e sensação de desrespeito;
  • Comunicação falha ou autoritária, comum em fazendas com liderança tradicional, pode gerar ordens mal compreendidas, retrabalho, e conflitos entre setores (campo, escritório, logística);
  • Pressão por produtividade e sazonalidade – safras, prazos curtos, clima imprevisível e riscos financeiros aumentam o estresse, provocando explosões emocionais, impaciência e culpabilização entre colegas;
  • Falta de clareza de papéis e responsabilidades – em muitas propriedades, funções se misturam, podendo causar sobrecarga, sensação de injustiça e disputas por território ou autoridade;
  • Liderança despreparada – gestores técnicos (agrônomos, veterinários, zootecnistas) em geral não recebem formação em gestão de pessoas. Esse despreparo por levar a decisões impulsivas, favoritismo e assédio moral involuntário ou intencional;
  • Mudanças tecnológicas – a modernização do agro gera insegurança em trabalhadores mais antigos. Impactos possíveis são sabotagem, resistência passiva e conflitos entre gerações;
  • Convivência prolongada em ambientes isolados – em fazendas nas quais equipes moram, a convivência intensa pode amplificar conflitos, como atritos pessoais, fofocas e desgaste emocional.

Assédio moral

O assédio moral, também conhecido pela denominação inglesa mobbing, é um dos fatores mais destrutivos para a saúde mental. É qualquer conduta repetitiva que humilha, constrange, desqualifica ou isola um trabalhador, afetando sua dignidade e integridade emocional.

Exemplos típicos de assédio moral são: gritar, humilhar ou ridicularizar uma pessoa em público; atribuir-lhe tarefas impossíveis ou inúteis de forma proposital; excluí-la de reuniões, decisões ou comunicações importantes; espalhar boatos, críticas constantes ou ironias; e controlar excessivamente horários, pausas ou resultados de forma punitiva.

As vítimas de assédio moral demonstram principalmente: medo de ir ao trabalho, ansiedade intensa, diminuição da autoestima, sensação de incompetência, adoecimento físico (gastrite, dores, insônia) e isolamento social.

Como o produto rural deve agir?

Cinco medidas são recomendadas:

  1. Mapear os riscos psicossociais – Incluir no PGR entrevistas, escuta ativa e avaliação do ambiente organizacional;
  2. Organizar jornadas e escalas – evitar jornadas excessivas, especialmente em períodos de safra;
  3. Estruturar a liderança – capacitar encarregados e gerentes para que se comuniquem com clareza, aprendam a gerir conflitos e previnam situações de assédio moral;
  4. Formalizar regras – criar um código de conduta e canais de denúncia, para reduzir riscos jurídicos;
  5. Monitorar sinais de adoecimento como aumento de faltas, irritabilidade, queda de produtividade e conflitos recorrentes.

Terceirizados

A NR-1 abrange não só empregados pela CLT. A empresa contratante deve coordenar e integrar as medidas de prevenção quando houver trabalhadores de diferentes empregadores no mesmo local, pois tem responsabilidade solidária, compartilhada, quanto às condições de segurança no ambiente de trabalho. Na prática, isso significa que, se contratar colheita mecanizada, aplicadores de defensivos, transportadores e equipes de manutenção, por exemplo, deve exigir das empresas contratadas documentação de SST, verificar se passaram por treinamentos obrigatórios, integrar as equipes de terceiros ao seu PGR e garantir que o ambiente esteja seguro.

Pontos de atenção estratégicos

A agropecuária brasileira, especialmente em regiões altamente produtivas como o interior paulista, vive elevada pressão por produtividade, escassez de mão de obra qualificada e judicialização crescente das relações trabalhistas. Nesse ambiente, ignorar os riscos psicossociais pode resultar em ações por assédio moral (cuja interpretação pode ser subjetiva, baseada na percepção e não em fatos objetivos), indenizações por adoecimento mental e danos à reputação.

Práticas recomendadas para o meio rural

Fortalecimento do apoio social e comunitário – grupos de convivência e rodas de conversa ajudam a reduzir o isolamento e criar redes de apoio emocional; nesse contexto, associações, cooperativas e sindicatos podem oferecer suporte organizacional, orientação e espaços de troca sobre dificuldades comuns.

Ampliação do acesso ao cuidado em saúde mental – capacitação das equipes de saúde da família para reconhecer sinais de sofrimento psíquico e encaminhar adequadamente; ações itinerantes (unidades móveis, visitas domiciliares) são essenciais em áreas remotas; integração entre saúde, assistência social e agricultura, reduzindo a fragmentação do cuidado, que ainda é um problema frequente em assentamentos rurais;

Educação e redução do estigma – campanhas locais que expliquem que saúde mental é parte da saúde integral; oficinas sobre estresse, ansiedade e estratégias de enfrentamento; sensibilização sobre os efeitos psicológicos do uso de agrotóxicos e outras exposições ocupacionais;

Melhoria das condições de trabalho – organização das jornadas para evitar sobrecarga; incentivo ao uso correto de EPIs, especialmente em atividades com agrotóxicos, fumicultura e extrativismo, reduzindo riscos físicos e psicológicos associados; planejamento financeiro e apoio técnico para reduzir a pressão econômica durante safras e períodos de instabilidade;

Estratégias individuais de enfrentamento – técnicas simples de manejo do estresse (respiração, pausas programadas, divisão de tarefas); estabelecimento de rotinas de descanso e lazer, mesmo em períodos de alta demanda; busca ativa por apoio quando surgirem sinais persistentes de sofrimento emocional.

Prevenção faz diferença

A prevenção eficaz combina melhorias estruturais, apoio comunitário, educação em saúde mental e serviços acessíveis. Quando esses elementos se articulam, reduzem-se tanto o sofrimento individual quanto os impactos sociais e produtivos do adoecimento mental no campo.

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