Cana-de-açúcar será relevante e estratégica por muitos anos
O mercado mundial de açúcar e álcool vem passando por uma mudança estrutural, que não deve afetar a tendência de crescimento da produção de cana-de-açúcar.
De um lado, embora o consumo de açúcar venha diminuindo gradativamente nos países ricos desde 2010, está crescendo nos países emergentes, em especial na África e na Ásia, levando à previsão de que terá uma expansão de 1,2% ao ano até 2034, quando deve chegar a cerca de 202 milhões de toneladas.
Por outro lado, o consumo de etanol no Brasil deve crescer de forma contínua, impulsionado pelo aumento da demanda por combustíveis para veículos leves. As projeções indicam uma expansão anual de 2,5 a 3 bilhões de litros nos próximos dez anos. Além disso, há perspectivas de aumento das exportações do produto, mas só quando a oferta superar a demanda interna, pois o mercado interno é prioritário.

Mercado do açúcar
A diminuição no consumo de açúcar nos países mais desenvolvidos se deve, principalmente, a mudanças comportamentais decorrentes da busca de uma vida mais saudável e, em consequência, das políticas públicas que vêm sendo adotadas por meio da maior taxação das bebidas açucaradas, dos alertas impressos nas embalagens e das campanhas deflagadas nos meios de comunicação por médicos e entidades de promoção da saúde.
A principais quedas de consumo são observadas nos Estados Unidos, onde o consumo ainda é alto; na União Europeia, onde ser observa uma queda consistente; no Japão, onde o consumo já é baixo e está em declínio; e ainda no Canadá e na Austrália. Na América Latina, particularmente no Brasil, no México e no Chile, observa-se redução no consumo das classes mais altas.
Já os aumentos de consumos são observados principalmente na Índia, nos países do sudeste asiático (Vietnã, Filipinas e Indonésia, com forte expansão, e Tailândia e Malásia, com expansão mais moderada) e na África, onde os principais destaques cabem a Nigéria, Egito, Etiópia, Quênia, Tanzânia e Gana, além da África do Sul, um mercado mais maduro, mas com elevado consumo per capita.
Tendências para o etanol
Uma pergunta frequente é se o etanol vai substituir o açúcar. Não precisamente, embora “disputem” a mesma matéria-prima, principalmente no Brasil e na Índia.
Nos dois países, o maior direcionamento da cana para produção de etanol depende de três fatores: preço do petróleo, preço do açúcar e políticas públicas. Quando o preço do petróleo sobe, maior quantidade de cana é destinada à produção de etanol. Em compensação, quando o açúcar está mais valorizado, o etanol fica em segundo plano. É uma questão de custo de oportunidade, buscando-se investir onde o lucro é mais alto.
Do ponto de vista das matérias-primas para etanol, a cana deve manter-se soberana, pois apresenta uma das melhores relações energia/área entre as culturas agrícolas. É muito mais eficiente do que o milho (principal fonte nos Estados Unidos) e a beterraba (na Europa).
O etanol de cana, graças ao progresso tecnológico brasileiro (avanços genéticos e novas técnicas de manejo), apresenta maior rendimento por hectare e menor pegada de carbono.
Flexibilidade, a grande vantagem
Considerando-se todos os aspectos citados, a conclusão é a de que, para as usinas, a principal vantagem é a flexibilidade econômica, pois a mesma matéria-prima pode gerar açúcar, etanol e bioenergia (eletricidade e gás) a partir do bagaço.
Mesmo com a mudança estrutural observada no mercado mundial, o açúcar permanece com consumo em alta, embora com mudanças geográficas, e a demanda por etanol tende a crescer em razão das políticas de descarbonização que vêm sendo aplicadas no mundo inteiro.
Assim, a cultura da cana-de-açúcar deve permanecer altamente relevante a médio e longo prazos, não só pela ausência de alternativas, mas por reunir vantagens competitivas difíceis de superar em custo, eficiência e flexibilidade. Embora existam tecnologias emergentes e substitutos potenciais, nenhum deles, até o momento, ameaça de forma significativa sua posição dominante.
Além disso, o melhoramento genético continua avançando com rapidez no Brasil. Nesse segmento, entre outras inovações, novas variedades eretas, altas, produtivas, resistentes à seca e mais apropriadas à mecanização são um dos destaques da pesquisa conduzida pelo Programa Cana IAC, mantido pelo Instituto Agronômico, vinculado à Secretaria de Agricultura e Abastecimento do Estado de São Paulo. É o que mostra a foto que ilustra esta matéria.
