Etanol de milho ou de cana, qual a melhor opção?
O etanol, tanto de milho quanto de cana, tem a mesma fórmula química. Portanto, os dois tipos não se distinguem no desempenho dos motores, nem nos benefícios que proporcionam para a sustentabilidade ambiental. O que muda é o processo de produção, caracterizado por diferenças de ciclo agrícola, pegada ambiental e estrutura de custos, entre outros fatores.
No texto a seguir, essas diferenças são explicadas em detalhes.
Diferenças no campo
Quanto ao ciclo de produção, a cultura da cana-de-açúcar é semiperene. Após o primeiro corte (cana-planta), as plantas rebrotam e, dependendo das condições de solo e manejo de cada propriedade, podem ser realizados até cinco cortes adicionais (cana-soca). Na sequência, é feita a reforma do canavial. Já a cultura do milho é anual. Em geral, são feitos dois plantios por ano na mesma área (safra e safrinha).
No que diz respeito ao custo da matéria-prima para a usina de etanol, o milho é uma commodity com cotação internacional, que se reflete nos preços internos. Já o custo da cana está atrelado à cotação do açúcar no mercado mundial e ao preço do etanol no mercado interno, conforme acordo setorial entre as unidades estaduais do Conselho dos Produtores de Cana-de-Açúcar, Açúcar e Etanol (Consecana).
Vida útil da matéria-prima
No que se refere ao prazo de utilização da matéria-prima, a cana precisa ser moída até 48 horas após ter sido colhida, enquanto o milho pode ser estocado e processado muito tempo depois da colheita.
Assim, o etanol de cana é produzido apenas na época da colheita da planta, de abril a novembro, fazendo com que, de dezembro a março, sua oferta se limite ao produto estocado, provocando pressão de alta no seu preço.
Já as usinas de etanol de milho podem produzir o biocombustível em qualquer época, com menor volatilidade de preço. A indústria pode prevenir os efeitos dessa volatilidade antecipando a compra e o armazenamento do milho, aproveitando o período em que a cotação estiver mais baixa.
Em resumo, os custos de produção do etanol variam conforme a matéria-prima utilizada, seu preço e a localização da usina, fatores que podem favorecer uma ou outra rota de produção.
Diferenças na indústria
O processo de produção na indústria também é diferente. Enquanto o milho deve ser primeiramente triturado, a cana é lavada com água antes da moagem, para retirar as impurezas do solo.
Outra diferença está na origem da energia que move a indústria. Enquanto no setor de cana, a maioria das usinas queima o próprio bagaço da cana processada e utiliza a energia gerada em sua própria estrutura, podendo ainda vender o excedente no mercado, nas plantas de etanol de milho a energia necessária (normalmente produzida com a queima de cavacos de eucalipto) representa um custo adicional.
A produção de etanol por tonelada de matéria-prima apresenta grandes diferenças. Uma tonelada de milho permite que se produzam de 380 a 410 litros do biocombustível, enquanto de uma tonelada de cana só se extraem 43 litros, de acordo com dados da União das Indústrias de Cana-de-Açúcar e Bioenergia (Unica), relativos à safra 2024/25.
Por outro lado, a produtividade agrícola da cana é muito mais elevada, o que compensa a diferença de rendimento por tonelada: um hectare de cana permite produzir 6.800 litros de etanol, enquanto um hectare de milho proporciona 2.300 a 2.500 litros. Porém, como o milho é produzido em duas safras ocupando a mesma área, a diferença acaba sendo menor, mas ainda assim é expressiva.
Benefício ambiental
Em comparação com o etanol de milho, o biocombustível extraído da cana poupa mais de emissões de gases do efeito estufa, de acordo com a análise do ciclo de vida (ACV), metodologia que considera a pegada de carbono desde a produção da biomassa no campo até a queima do biocombustível nos motores.
Já a parcela do etanol de cana que consegue ter sua pegada de carbono rastreada no programa RenovaBio (Política Nacional de Biocombustíveis) é bem maior do que a do etanol de milho: 88,8% da produção das usinas certificadas poderiam ser remuneradas pela pegada ambiental (por meio da venda de Créditos de Descarbonização).
Na mesma comparação, somente 60% do etanol de milho produzido por usinas certificadas obteria esse benefício. Essa diferença é reflexo, particularmente, da maior dificuldade de rastrear a origem do milho plantado, já que a cadeia do cereal tem intermediários, como tradings, cooperativas e cerealistas, que juntam a produção do grão de diversos produtores em um mesmo silo. Na cultura da cana, esse processo é mais simples, pois a relação entre fornecedores e usinas é direta.
Conclusão
Não há uma resposta única e direta para a pergunta expressa no título. Cada tipo de etanol apresenta vantagens e desvantagens, que variam de acordo com a região produtora, infraestrutura disponível, época do ano e outros fatores. Ambos, porém, são economicamente viáveis e representam importantes opções para que o Brasil se mantenha na vanguarda da produção e do uso de biocombustíveis, que desempenham papel fundamental na transição para uma matriz energética mais sustentável. Ao substituírem, parcial ou totalmente, os combustíveis fósseis, contribuem para a redução da emissão de gases do efeito estufa e de outros poluentes atmosféricos.
(o texto acima foi baseado em matéria de autoria da jornalista Camila Souza Ramos, publicada no portal Visão Agro)
