Doenças exigem atenção desde a fase inicial das lavouras de grãos
Os produtores rurais dedicados às culturas de soja e milho na região Sudeste devem estar atentos à incidência de doenças em suas lavouras a partir do final de setembro. Esse alerta é especialmente válido para este ano, em que as chuvas mais abundantes previstas em função do El Niño devem provocar maior umidade relativa e períodos prolongados de molhamento foliar, ou seja, condições ambientais mais favoráveis à proliferação de fungos patogênicos. Lagartas e percevejos também requerem cuidados.
Esse tema tem sido objeto de estudos de órgãos como Embrapa Milho e Sorgo, Embrapa Soja e Instituto Agronômico (IAC), cujas principais diretrizes técnicas voltadas ao manejo e ao controle desses males envolvem o aprimoramento de estratégias integradas, novas tecnologias de tratamento e alertas fitossanitários decorrentes das variações climáticas.
A propósito, a Embrapa tem emitido alertas frequentes sobre a intensificação de doenças fúngicas e bacterianas nas lavouras em virtude de oscilações climáticas atípicas (alternância de períodos chuvosos e veranicos), indicando que 46% das doenças agrícolas no Brasil tendem a tornar-se mais severas até o ano de 2100 devido aos impactos das mudanças climáticas
É necessária atenção especial às doenças de final de ciclo (DFCs), expressão clássica que se refere à fase de maturação das culturas, mas que vale para o momento atual, pois muitas delas iniciam a infecção ainda nos primeiros estádios vegetativos, exigindo monitoramento preventivo desde o estabelecimento da lavoura.
Soja
As principais DFCs e complexos de manchas foliares que merecem monitoramento rigoroso no arranque da safra de soja incluem:
- Mancha-parda (Septoria glycines): é uma das primeiras doenças a se manifestar nas folhas inferiores. O fungo sobrevive nos restos culturais e sementes. Caracteriza-se por pequenas manchas castanhas com bordas definidas que podem se unir, provocando desfolha precoce da base para o topo se houver alta umidade.
- Crestamento Foliar e Mancha-púrpura (Cercospora kikuchii): o patógeno afeta folhas, hastes e vagens. Nas folhas superiores expostas ao sol, causa uma coloração avermelhada ou bronzeada intensa (crestamento). Nos grãos, resulta na clássica mancha-púrpura no tegumento, comprometendo o vigor da semente.
- Mancha-alvo (Corynespora cassiicola): embora atinja várias partes da planta, tem sua incidência ampliada em áreas com palhada abundante de plantio direto. Suas lesões circulares com anéis concêntricos (semelhantes a um alvo) reduzem drasticamente a área foliar fotossinteticamente ativa e exigem atenção redobrada devido a casos de menor sensibilidade a alguns fungicidas.
Milho de verão
No milho cultivado no sistema de verão, o complexo de doenças foliares e de final de ciclo ganha força com o fechamento do dossel e oscilações térmicas:
- Cercosporiose ou Mancha Cinzenta (Cercospora zeae-maydis): favorecida por períodos quentes e alta umidade, destaca-se pelas lesões estritamente retangulares que respeitam as nervuras das folhas. Com a evolução, tornam-se cinzentas, reduzindo a capacidade de enchimento de grãos e enfraquecendo o colmo (favorecendo o acamamento).
- Mancha-Branca do Milho: causada por um complexo bacteriano e fúngico (Phaeosphaeria maydis / Pantoea ananatis), manifesta-se inicialmente com pequenas manchas encharcadas que evoluem para lesões palhas/brancas. É altamente influenciada por noites frias e alta umidade típica de transições climáticas, podendo destruir rapidamente a área foliar se o híbrido escolhido for suscetível.
- Ferrugens (Polysora e comum): embora muitas vezes tratadas à parte das DFCs clássicas, as ferrugens do milho representam risco severo de final de ciclo e exigem vistorias constantes nas folhas logo após a fase vegetativa avançada.
Manejo preventivo
Para prevenção do ataque das doenças citadas, as principais estratégias recomendadas pelos órgãos técnicos incluem:
- Tratamento de sementes: o uso de tecnologias biológicas e químicas integradas no tratamento de sementes tem ganhado forte tração no Sudeste para conter o avanço de pragas de solo e nematoides logo no estabelecimento da cultura. Soluções sistêmicas recentes vêm sendo adotadas para proteger o sistema radicular da soja e do milho de verão logo nas primeiras semanas.
- Escolha genética: priorizar cultivares de soja e híbridos de milho com maior tolerância ou resistência genética documentada para as doenças de maior histórico na sua microrregião.
- Rotação de culturas: a alternância com gramíneas (como o milho ou braquiária no sistema de integração) ajuda a quebrar o ciclo de sobrevivência dos fungos presentes nos restos culturais da soja.
- Controle de lagartas e percevejos: com o regime térmico do verão, o monitoramento rigoroso via amostragem de plantas permanece como a principal recomendação técnica para evitar surtos populacionais de percevejos e lagartas (como Spodoptera frugiperda), priorizando a seletividade para preservar os inimigos naturais.
Ferramentas legais e digitais
Em paralelo, órgãos públicos e empresas privadas vem atuando por meio de medidas legais e desenvolvimento de ferramentas digitais de apoio ao trabalho dos produtores rurais.
No campo dos marcos legais, órgãos de defesa sanitária vegetal nos estados do Sudeste (como a Defesa Agropecuária do Estado de São Paulo) intensificaram as fiscalizações e o monitoramento fitossanitário integrado, com foco no cumprimento de normativas de vazio sanitário e controle de pragas quarentenárias ou de impacto econômico direto na cadeia produtiva.
Por outro lado, os produtores da região Sudeste têm ampliado o uso de plataformas digitais de manejo e rastreabilidade de insumos para otimizar a aquisição de defensivos e planejar aplicações baseadas em índices de severidade de doenças.
