Controle biológico de nematoides continua avançando
O mercado de bionematicidas vem crescendo de forma consistente. Em 2023, ano para o qual há os mais recentes dados consolidados, o Brasil tinha 96 produtos dessa categoria registrados. Projeções indicam que o mercado de biológicos (incluindo bioinseticidas e biofungicidas) atingirá R$ 3,7 bilhões até 2030, com os nematicidas representando 35% desse valor.
O controle biológico de nematoides que infestam raízes de cafeeiros, plantas cítricas e outras espécies vegetais de interesse econômico, como soja, algodão, tomate e hortaliças, vem crescendo continuamente. Nesses segmentos, destacam-se o uso de microrganismos benéficos, como bactérias e fungos, e estratégias integradas para manejo sustentável.
Café
Os nematoides mais problemáticos em cafezais, como Meloidogyne incognita, M. paranaensis e Pratylenchus spp., causam perdas de até 20% na produtividade se não controlados.
Os mais recentes avanços em benefício da cafeicultura incluem bionematicidas comerciais à base de bactérias e fungos, cultivo intercalar de plantas antagonistas e práticas de manejo. Esses avanços são explicados resumidamente a seguir.
Bionematicidas comerciais – Vêm sendo utilizados em escala crescente produtos à base das bactérias Bacillus subtilis e B. licheniformis, que promovem a formação de biofilme nas raízes, dificultando a penetração de nematoides, além de estimular o crescimento radicular, reduzindo o impacto de Meloidogyne e Pratylenchus. Também vêm sendo aplicados com sucesso produtos à base dos fungos Paecilomyces lilacinus e Pochonia chlamydosporia, que atuam por parasitismo direto, degradando ovos e juvenis de nematoides.
Cultivo intercalar com plantas antagonistas – Como o café é uma cultura perene, a rotação de culturas é inviável, mas o cultivo intercalar nas entrelinhas com espécies não hospedeiras ou antagonistas, como Crotalaria spectabilis ou Tagetes spp., tem reduzido populações de nematoides. Essas plantas liberam compostos alelopáticos que inibem a reprodução de Meloidogyne.
Manejo integrado – A amostragem na época chuvosa para identificar populações de nematoides, combinada com aplicação de bionematicidas e uso de mudas certificadas livres de infestação, é uma prática recomendada. A integração de controles biológicos e culturais (como manejo de água para evitar disseminação) tem revelado maior eficiência.
Plantas cítricas
Os nematoides dos citros, especialmente Tylenchulus semipenetrans, reduzem o vigor das árvores e a produção de frutos. Avanços recentes no controle biológico incluem produtos à base de bactérias e fungos e o uso de porta-enxertos resistentes.
Bactérias –Bacillus amyloliquefaciens e B. subtilis são usadas em bionematicidas que, da mesma forma já explicada para os cafeeiros, formam biofilmes protetores nas raízes, interferindo na quimiotaxia dos nematoides, ou seja, o processo por meio do qual se aproximam ou se afastam de uma substância química. Os bionematicidas à base dessas bactérias também induzem resistência sistêmica nas plantas, aumentando sua tolerância a T. semipenetrans.
No Brasil, bionematicidas contendo Bacillus spp. representam cerca de 70% dos produtos comerciais registrados para nematoides, com aplicação via tratamento de mudas ou irrigação.
Fungos – Produtos à base dos fungosTrichoderma harzianum e Pochonia chlamydosporia têm mostrado eficácia contra T. semipenetrans por meio de parasitismo e produção de enzimas líticas (quitinas e proteases), que degradam a cutícula dos nematoides. Esses fungos também melhoram a saúde do solo, favorecendo a microbiota benéfica. Adicionalmente, produtos à base do fungo Paecilomyces lilacinus são recomendados para citros em mercados orgânicos, pois oferecem controle sem resíduos químicos.
Porta-enxertos resistentes combinados com biocontrole – Obtém-se maior proteção com o uso de Porta-enxertos como citrange Troyer e laranja trifoliada, que apresentam tolerância a nematoides, combinados com bionematicidas. Essa estratégia reduz a densidade populacional inicial de nematoides e prolonga a vida útil das árvores.
Outras espécies vegetais
Nematoides como Meloidogyne spp., Pratylenchus spp., Heterodera glycines (soja) e Rotylenchulus reniformis afetam culturas como soja, algodão, tomate e hortaliças.
Bactérias – Os produtos à base de bactérias Bacillus spp., além de formar biofilmes, produzem toxinas que interferem no ciclo reprodutivo de nematoides, como Meloidogyne e Pratylenchus. A indução de resistência sistêmica (RSI) nas plantas é um benefício secundário.
Na cultura da soja, a bactéria Pasteuria nishizawae é altamente específica para o controle de Heterodera glycines (nematoide-de-cisto-da-soja), aderindo à sua cutícula, impedindo sua reprodução. Apesar de limitada por dificuldades de produção em massa, essa bactéria é promissora em áreas infestadas.
Fungos – Os fungos Trichoderma spp. produzem metabólitos tóxicos e enzimas que degradam a parede celular de nematoides, sendo eficazes contra Meloidogyne em tomate e hortaliças.
Plantas de cobertura – Em soja, o uso de plantas de cobertura como Crotalaria juncea tratadas com bionematicidas (ex.: Bacillus spp.) reduziu populações de M. javanica e P. brachyurus em até 30% em ensaios de campo, aumentando a produtividade.
Coquetéis microbianos – Coquetéis combinando Bacillus amyloliquefaciens, B. subtilis e Trichoderma são aplicados no tratamento de sementes ou no sulco de plantio, intensificando o controle por múltiplos modos de ação (parasitismo, competição e antibiose). Formulações de liberação lenta e misturas de microrganismos (coquetéis) aumentam a persistência no solo.
Nematoides entomopatogênicos – Embora tenham como foco o controle de insetos, os nematoides Steinernema feltiae e Heterorhabditis bacteriophora estão sendo testados em hortaliças para controle indireto de nematoides fitoparasitas, por sua capacidade de melhorar a saúde do solo e reduzir vetores.
Tendências e inovações
O controle biológico é valorizado por sua compatibilidade com agricultura orgânica e redução de resíduos químicos. Produtos biológicos registrados para alvos específicos (e não culturas) ampliam sua aplicabilidade.
A incorporação de matéria orgânica e o manejo de microbiota do solo favorecem antagonistas naturais, como fungos e bactérias, reduzindo populações de nematoides.
Tecnologias de aplicação também vêm registrando progressos significativos. Nessa área, drones e sistemas de irrigação estão sendo adaptados para aplicar bionematicidas com maior precisão, especialmente em culturas perenes como café e citros.
