Como plantar para sequestrar carbono?

No Brasil, quando se fala em reflorestamento, todo mundo pensa em área: quantos hectares foram plantados? Quantos ainda precisamos? Quantos milhões constam no Plano ABC+? Mas, e se estivéssemos fazendo a pergunta errada?

Essas considerações foram feitas pelo engenheiro agrônomo Luís Eduardo Pacifici Rangel, ex-secretário de Defesa Agropecuária e ex-diretor de Análise Econômica e Políticas Públicas do Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), atualmente membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS)

Ele prossegue: “E se o verdadeiro motor da remoção de carbono não for apenas a quantidade de terra coberta por árvores, mas a capacidade dessas árvores de crescer mais rápido, acumular mais biomassa e sequestrar mais carbono por hectare?

E responde: “Em outras palavras: não é só plantar mais — é plantar melhor”.

Sobre esse tema, ele escreveu um artigo, que transcrevemos a seguir (texto em itálico).

Produtividade florestal é a chave

É isso que mostra um estudo recente desenvolvido pelo Departamento de Produção Sustentável do Ministério da Agricultura, com base em dados da Embrapa, IBGE e Instituto Brasileiro de Árvores (IBÁ): a produtividade florestal explica mais o volume de CO₂ removido da atmosfera do que a simples expansão da área plantada.

E mais: cenários com menor área, mas com maior produtividade, conseguem resultados de mitigação semelhantes — com menor custo fundiário, menos pressão sobre o uso do solo e maior eficiência.

A conta que ninguém está fazendo

Hoje, o Brasil tem cerca de 10 milhões de hectares de florestas plantadas, principalmente de eucalipto. Essa área vem crescendo há décadas — mas a produtividade média nem sempre tem acompanhado esse crescimento.

Se o País continuar focando apenas em plantar mais, corre o risco de esgotar sua capacidade fundiária antes mesmo de atingir suas metas de remoção de carbono.

Por outro lado, investir em genética, manejo e técnicas silviculturais pode multiplicar a produtividade, reduzindo a necessidade de expansão e os conflitos com outras formas de uso da terra.

Um exemplo prático: cada hectare que aumenta sua produtividade em uma tonelada por ano remove mais de 1,3 milhão de toneladas de carbono a mais no agregado nacional, segundo as simulações apresentadas no estudo.

A silvicultura de alta performance já existe

Não é utopia. Já temos clones de eucalipto que ultrapassam 70 m³/ha.ano em áreas otimizadas. Já temos modelos de gestão que identificam o ponto ótimo de corte para maximizar a captura de carbono. Já temos softwares que simulam o crescimento de cada árvore com base no solo, clima e genética.

O problema não é técnico. É político.

As metas do Plano ABC+ continuam ancoradas na velha lógica da “meta de área”, ignorando os avanços expressivos que o setor florestal já entregou. Isso desestimula a inovação e gera um sinal regulatório errado: premia quem planta mais terra, e não quem planta melhor.

Inteligência climática: produtividade + idade técnica de corte

Outra revelação do estudo é que cortar a floresta antes do tempo ideal — prática comum no setor — pode comprometer até 28% da produtividade. Isso não apenas reduz a rentabilidade do investidor, mas também distorce as estimativas oficiais de remoção de carbono.

A idade técnica de corte (em torno de 6 a 8 anos) deve ser considerada como variável crítica nas metas climáticas do setor florestal. Afinal, o melhoramento genético e o manejo de precisão só entregam seu potencial máximo se a floresta for colhida no momento certo.

Você sabia que podemos perder cerca de 11% de eficiência de captura de carbono só por antecipar o corte do eucalipto em 8 meses?

Carbono não é só árvore — é ativo financeiro

Com a chegada do Sistema Brasileiro de Comércio de Emissões (SBCE), os ativos florestais passam a ter valor não apenas como matéria-prima, mas também como instrumento de mitigação com valor de mercado.

A madeira deixa de ser apenas celulose e carvão. Entra na construção civil, nos biocombustíveis, nos créditos de carbono. Cada metro cúbico vira uma moeda climática.

Mas para isso funcionar, precisamos de sistemas robustos de MRV (medição, relato e verificação). E é aqui que o estudo oferece uma inovação metodológica: usar dois indicadores auxiliares — área × produtividade e tCO₂/ha.ano — como novos pilares do planejamento climático brasileiro.

E a COP30 com isso?

A COP30 será realizada em Belém, coração da Amazônia, em novembro deste ano. O mundo inteiro vai olhar para o Brasil, esperando liderança, inovação e resultados.

E se o Brasil apresentasse, já na COP30, uma revisão das metas florestais com base na produtividade e na idade técnica de corte? Isso colocaria o país na vanguarda da gestão climática baseada em evidência científica.

O mais interessante é que floresta plantada não deve ser só eucalipto. Precisamos de diversas espécies e principalmente diversificar a demanda da indústria de energia e construção civil. 

Cimento e aço emitem muito gás carbônico. Madeira remove! Temos que mudar a polaridade e iniciar uma revolução sustentável pela demanda de produtos florestais no setor de construção e energia! JÁ!

Seria uma demonstração de que aprendemos com nossos próprios dados. Que sabemos calcular o que importa. Que somos mais do que um país de metas de papel.

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