Brasil contribui para revolucionar pecuária leiteira africana

O Brasil consolida cada vez mais seu papel de protagonista no cenário agropecuário mundial. Além da consagrada e crescente exportação de alimentos, com destaque para soja, café, suco de laranja e carnes bovina, suína e de aves, entre muitos outros itens, o país também vem colocando no exterior um ativo de alto valor: soluções tecnológicas e de desenvolvimento.

O exemplo mais recente foi registrado no final de setembro de 2026, quando se completou uma operação logística de grande envergadura: o embarque de 600 bovinos leiteiros das raças Girolando (590 animais) e Gir (10 animais) para Botsuana, na África. Depois de períodos de quarentena e preparação em Lins (SP), os animais foram transportados para o aeroporto de Viracopos, em Campinas (SP), de onde seguiram em três voos fretados para o continente africano.

Essa operação comercial foi liderada pelo Ministério da Agricultura e Pecuária (MAPA), em parceria com a estatal Botswana Development Corporation (BDC).

Segurança alimentar

Botsuana é uma das economias mais prósperas e estáveis da África Subsaariana. Até sua independência, em 1966, depois de 80 anos como protetorado britânico, era um dos países mais pobres do mundo. Graças a forte responsabilidade fiscal, baixos índices de corrupção e solidez institucional, hoje é classificada como nação de renda média-alta, tendo na mineração de diamantes e no turismo seus principais motores econômicos. Sua população é de 2,6 milhões de habitantes, dos quais 2 milhões, aproximadamente, vivem em áreas urbanas.

Apesar do progresso já alcançado, Botsuana ainda carece de maior protagonismo na produção de alimentos, e vem buscando corrigir esse quadro por meio de investimentos no desenvolvimento da agropecuária. Nesse sentido, mais do que uma simples transação comercial, a exportação de bovinos realizada pelo Brasil representa uma importante contribuição para a segurança alimentar desse país africano, que atualmente produz apenas 10% do leite que consome, dependendo fortemente de importações. A aposta na genética brasileira se deve ao alto grau de evolução que a pecuária leiteira adaptada às condições tropicais alcançou no Brasil.

Girolando é referência

O grande destaque da exportação — respondendo pela quase totalidade do rebanho embarcado — é a raça Girolando, responsável por 80% do leite produzido no Brasil. Seus principais diferenciais, de acordo com a Associação Brasileira dos Criadores de Girolando, são alta produtividade, rusticidade, precocidade, longevidade e fertilidade, além da alta capacidade de adaptação a diferentes tipos de manejo e clima.

A raça Girolando surgiu por volta da década de 1940, no Vale do Paraíba (SP), quando um touro Gir, que provavelmente escapou acidentalmente de uma propriedade, invadiu uma propriedade vizinha, onde cruzou com vacas da raça Holandesa. Os descendentes apresentaram as características diferenciadas citadas acima, atraindo criadores de outras regiões. Com o tempo, desenvolveram-se técnicas de seleção para aprimorar o desempenho zootécnico do cruzamento. Da raça Gir, o Girolando herdou adaptação e rusticidade; do Holandês, a elevada produção leiteira.

O resultado dessa combinação é um animal único no mundo: um “motor de leite” capaz de expressar alta produtividade sem sofrer com o estresse térmico típico de regiões quentes como o interior brasileiro e diversas áreas do continente africano. É essa resiliência aliada à eficiência que consolidou o Girolando como a principal ferramenta para a produção de leite em climas tropicais.

Transferência de tecnologia

A operação logística de setembro — que concluiu embarques iniciados em julho — exigiu rigorosos protocolos sanitários, quarentena monitorada em Lins (SP) e voos fretados rumo a Lobatse, no sudeste botsuanense. No entanto, o verdadeiro impacto do projeto está no que acontece após o desembarque.

A parceria estabelecida entre os governos prevê uma robusta transferência de tecnologia e capacitação técnica. Especialistas brasileiros auxiliam na implantação de programas de melhoramento genético, manejo reprodutivo e, inclusive, avaliam a instalação de um laboratório de Fertilização In Vitro (FIV) em solo africano.

Não é a primeira vez que o Brasil estende a mão para apoiar o desenvolvimento pecuário de parceiros internacionais. O país possui um histórico consistente no envio de genética zebuína de elite e animais reprodutores para diversas nações da África (como Angola, Moçambique e Etiópia), além de mercados na América Latina e Ásia.

Ao transformar a pecuária tropical em um produto de exportação intelectual e biológica, o Brasil prova que a sua maior colheita não é apenas de grãos ou carne, mas sim de inovação adaptada para alimentar o futuro do planeta.

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