Brasil busca reduzir dependência externa de fertilizantes
A agricultura brasileira vive historicamente uma situação desconfortável: a elevada dependência externa de fertilizantes. Dos 41 milhões de toneladas de macronutrientes essenciais – nitrogênio (N), fósforo (P) e potássio (K) – consumidos anualmente no País, cerca de 85% são importados. Em compensação, o Brasil é autossuficiente em calcário (corretivo de acidez) e gesso agrícola (condicionador do solo).
São adquiridos externamente 90% dos fertilizantes nitrogenados (Rússia, China e Oriente Médio são os maiores fornecedores, nessa ordem), 75% dos fosfatados (China, Marrocos e Rússia) e 90% dos potássicos (Belarus, Canadá e Rússia).
A meta do País é reduzir essa dependência pela metade até 2050. Isso requer várias medidas, dentre as quais três são consideradas fundamentais: a prospecção de jazidas internas, o uso de fontes alternativas de fornecimento de macronutrientes e o desenvolvimento de técnicas que proporcionem maior eficiência no seu uso.
Pesquisas avançam
Os pesquisadores científicos Walder Antônio Gomes de Albuquerque Nunes e Adriana Marlene Moreno Pires, da Embrapa Agropecuária Oeste, com sede em Dourados, MS, vêm trabalhando em busca de soluções para essa área, e escreveram um artigo relatando os avanços já alcançados. Ambos argumentam que, dos diversos fatores que influenciam a produtividade das culturas, “a fertilidade do solo é o mais facilmente manejável, sendo inegável a relevância do uso de fertilizantes, corretivos e condicionadores para proporcionar um melhor ambiente produtivo”.
Ressaltam que a dependência de fontes externas é uma questão de segurança e soberania nacional, que causa preocupação “principalmente porque uma parte expressiva desses fertilizantes provém de regiões politicamente instáveis, o que facilita a ação de especuladores e tem ocasionado elevações bruscas nos preços”.
Porém, enfatizam que a situação poderia ser pior: “Afortunadamente, nossa principal commodity agrícola, a soja, não depende de fertilizante nitrogenado, resultado obtido por intensas pesquisas na fixação biológica de nitrogênio (FBN)”.
Saídas em estudo
As ações para reduzir essa dependência externa incluem a prospecção de jazidas, o estímulo ao aumento da produção interna e o equacionamento de questões ambientais e logísticas, detalhadas no Plano Nacional de Fertilizantes, elaborado por um Grupo de Trabalho Interministerial, que foi recentemente revisto em suas metas.
Os pesquisadores explicam que, dos fertilizantes consumidos em maiores quantidades, o fósforo e o potássio dependem exclusivamente de reservas minerais. Já o nitrogênio pode ser obtido a partir do gás natural ou do processo que fixa o nitrogênio atmosférico, porém com grande consumo de energia elétrica.
Também está em estudo o uso de resíduos minerais ou orgânicos oriundos de cadeias industriais ou agroindustriais, o que, de acordo com os pesquisadores da Embrapa, “proporciona uma oportunidade tangível de reduzir a geração de gases de efeito estufa e de reciclar nutrientes que, de outra forma, seriam destinados a aterros sanitários”.
Outra abordagem é a redução das quantidades requeridas de fertilizantes, decorrente do aumento da eficiência de uso desse insumo, sem comprometimento das produtividades. Nesse sentido, os pesquisadores esclarecem: “Constata-se que, depois do advento dos fertilizantes minerais, a forma de fertilizar as culturas ficou praticamente inalterada durante décadas: fontes solúveis de N, P e K ainda são aplicadas ao solo, frequentemente com reduzida taxa de aproveitamento pelas culturas. Para exemplificar, estima-se que apenas 50% dos nutrientes aplicados sejam efetivamente utilizados pelas plantas, havendo perdas por fixação ao solo (P), lixiviação (N e K) e volatilização (N)”.
Uso mais eficiente
Na parte final do artigo, os pesquisadores abordam um ponto crucial: como tornar o uso dos fertilizantes mais eficiente. Esse trecho é transcrito a seguir (texto em itálico).
O aumento da eficiência de uso dos fertilizantes requer diferentes estratégias, sendo que a mais utilizada é sincronizar a liberação dos nutrientes com o desenvolvimento das culturas, de forma a deixá-los disponíveis à medida que avança o ciclo das plantas, que atinge demanda máxima na fase de enchimento de grãos. O exemplo mais notório envolve o nitrogênio, em que são utilizadas técnicas de encapsulamento físico dos grânulos dos fertilizantes e/ou uso de substâncias retardantes químicos ou bioquímicos, o que é amplamente utilizado com a ureia, fonte de N mais comum no mercado.
A fonte natural de P mais utilizada é a rocha fosfática (fosfato de cálcio), que deve ser submetida a tratamento ácido para aumentar sua solubilidade no solo. No entanto, formas muito solúveis, como o MAP (monoamônio fosfato), quando aplicadas em solos argilosos tropicais, estão sujeitas a fixação do P nos óxidos, ficando rapidamente indisponíveis para as plantas. Decorre desse processo que, embora nossos solos agrícolas já apresentem elevados níveis de fósforo devido ao longo histórico de fertilizações, parte expressiva desse elemento não permanece acessível às plantas. Para resolver esse problema, recentemente foram desenvolvidos produtos biológicos que conseguem disponibilizar parte desse fósforo, diminuindo a necessidade de adicionar fertilizantes.
As abordagens citadas foram obtidas após anos de Pesquisa, Desenvolvimento e Inovação (PD&I) pela Embrapa, universidades e outras instituições públicas de pesquisa e da iniciativa privada e não prescindem de soluções que envolvam o uso de plantas mais eficientes, bioestimulantes e aprimoramentos nos sistemas de produção. Apenas para exemplificar, o uso de plantas de cobertura pode reduzir alguns desses processos de perda de nutrientes ao proporcionar uma ciclagem entres as camadas mais profundas e a superfície do solo, sinalizando que estratégias combinadas podem ser mais eficientes para o aumento da eficiência das fertilizações.Dessa forma, entende-se que para manter o histórico de sucesso de nossa agricultura, com aumentos consistentes de produtividade, são necessários avanços constantes nas tecnologias de fertilidade do solo e manejo de plantas, proporcionando maior eficiência, menores custos e menores
