Agronegócio brasileiro se destaca por sua biocapacidade

Biocapacidade significa a aptidão dos ecossistemas de prover biomassa para utilização humana. Esse conceito também engloba a habilidade de absorver os resíduos produzidos na geração dos bens e produtos agrícolas, sendo expressa em hectares globais (gha) por pessoa. Essa unidade é padronizada e representa a produtividade média mundial da agricultura, das pastagens, das florestas cultivadas e da pesca. A biocapacidade atual da Terra é de 1,6 gha/pessoa.

Neste 5 de junho, quando se comemora o Dia Mundial do Meio Ambiente, conhecer esse conceito é oportuno para entender como o Brasil se situa no cenário internacional (e, vale ressaltar, está muito bem!).

Para analisar esse quadro, os engenheiros agrônomos Décio Luiz Gazzoni e Evaldo Ferreira Vilela escreveram o artigo “Ciência agronômica, biocapacidade e serviços ecossistêmicos”. Gazzoni é pesquisador científico da Embrapa, membro do Conselho Científico Agro Sustentável (CCAS) e diretor de comunicação da Academia Brasileira de Ciência Agronômica (ABCA). Vilela é presidente da ABCA.

Nesse trabalho, os dois autores acentuam que a ciência agronômica engloba os conhecimentos, as tecnologias e as práticas para a obtenção de produtos agrícolas de forma sustentável. Um de seus pilares é integrar a produção agrícola com o meio ambiente, com o menor impacto adverso possível, preferencialmente sem impactos. Para isso, podem ser utilizadas diversas métricas.

No artigo, Gazzoni e Vilela analisam dois fatores intrinsecamente ligados, ambos conectados com a produção agrícola: a biocapacidade e os serviços ecossistêmicos. O artigo é reproduzido a seguir (texto em italic)

Mundo não vai bem

Em escala global, a Humanidade está se saindo muito mal na métrica da biocapacidade, de acordo com a ONG Global Footprint Network (GFN), vez que estamos consumindo recursos naturais mais rapidamente do que eles conseguem se regenerar. Ou seja, para produzir no presente estamos sacando a descoberto os recursos futuros da Terra, criando uma enorme dívida ecológica. Em outras palavras, excedendo a biocapacidade do planeta Terra.

As estimativas da biocapacidade são efetuadas pelo programa Ecological Footprint Calculator, através da divisão da biocapacidade teórica do planeta (significando a quantidade de recursos ecológicos que a Terra pode regenerar em um ano) pela pegada ambiental (representada pela quantidade de recursos naturais necessários para sustentar os padrões de consumo da população mundial, no mesmo período).

Dia do juízo final

A pegada ecológica mundial, em 2024, foi calculada em 2,7 gha/pessoa, ou seja, excedemos em 74% a sua biocapacidade (1,6 gha/pessoa, conforme citado anteriormente). Anualmente, a GFN anuncia o Earth Overshooting Day, o dia do ano em que a biocapacidade foi superada.

O primeiro cálculo foi feito em 1972, e esse dia caiu em 30 de dezembro, ou seja, a Terra operou no negativo apenas por um dia. Mas, em 2024, a partir do dia 2 de agosto, superamos a biocapacidade global e sacamos a descoberto por 152 dias.

Verifica-se que, nos últimos 52 anos, rompemos a perigosa barreira da capacidade de regeneração de recursos naturais cada vez mais cedo. Para ilustrar, em 2024 lançamos mão de recursos que equivalem a 1,74 planeta, ou seja, 74% acima da capacidade de renovação do único planeta que temos!

Valendo-se dos mesmos princípios, é possível calcular a biocapacidade ou a sobrecarga para um país ou um bloco. Exemplificando, a equipe do prof. Alessandro Galli publicou na revista Nature Sustainability uma análise da pegada ecológica da Europa. [N.E. – Galli é um pesquisador do Global Footprint Network, reconhecido internacionalmente por suas análises sobre pegada ecológica e sustentabilidade, com foco especial na Europa e região do Mediterrâneo]. Sua conclusão é que o continente excede em muito a sua biocapacidade, em termos de emissões e de utilização de terra e de água. Os países europeus com maior déficit de biocapacidade (em %) são Luxemburgo (840), Bélgica (490), Holanda (460), Itália (350), Suíça (250) e Reino Unido (240).

Para exemplificar, se o mundo tivesse o mesmo déficit de biocapacidade de Luxemburgo (840), seriam necessários 8,4 planetas iguais ao nosso para prover recursos naturais para as atividades humanas – algo impossível na prática.

Agricultura brasileira

A produção agrícola pode gerar diferentes formas de pressão sobre os ecossistemas, incluindo a alteração do uso dos solos, o esgotamento e a poluição da água, a perda de biodiversidade e emissões de gases de efeito estufa.

Entrementes, ao passo que os países da União Europeia exibem déficits de biocapacidade, o Brasil, o quarto maior produtor agrícola do mundo, ostenta um número positivo, pois sua biocapacidade excede a sua pegada ecológica em 219%.

Alvíssaras! A biocapacidade do Brasil é estimada em 9,6 gha/pessoa, e a nossa pegada ecológica (2024) foi de 3,1 gha/pessoa, e isso se deve em grande parte aos profissionais de agronomia e à boa ciência agronômica que praticamos. Nosso país situa-se em 13º lugar na escala global, sendo o primeiro colocado entre os grandes produtores agrícolas mundiais. A Austrália posiciona-se na 24ª colocação, sendo os dois únicos países de importância agrícola no mundo, com superávit de biocapacidade. Todos os demais apresentam uma pegada ecológica que supera a sua capacidade de regeneração. Singapura, por exemplo, excede sua biocapacidade em 6.100%!

Serviços ecossistêmicos

Além da biocapacidade, devemos focar nossa atenção nos serviços ecossistêmicos, aqueles serviços e benefícios obtidos direta ou indiretamente dos ecossistemas, que são essenciais para a produção agrícola. Por essa razão, um dos pilares da ciência agronômica é preservá-los para que sempre possam ser úteis à Humanidade.

Como são parte do nosso cotidiano – e a Natureza os oferece de forma gratuita! – a importância dos serviços ecossistêmicos costuma passar desapercebida para a maioria dos cidadãos. Entrementes, por milênios nos beneficiamos de uma infinidade de serviços ecossistêmicos. Na sua ausência, seguramente a História da civilização teria seguido outro rumo. Por essa razão, a cientista Sandra Diaz e colaboradores os caracterizou como “contribuição da Natureza para os povos”.

Os serviços ecossistêmicos podem ser classificados como:

a) Serviços de apoio ou de habitat: a polinização, a reciclagem de nutrientes e a formação de solo;

b) Serviços de aprovisionamento: oferta de produtos para extrativismo, matérias primas, recursos genéticos, água pura, etc.; e

c) Serviços de regulação: sequestro de carbono, regulação climática, decomposição de resíduos, controle biológico, entre outros.

O grupo científico do prof. Robert Constanza calculou que a contribuição dos serviços ecossistêmicos para a economia mundial, no ano de 2011, ficou entre US$ 125 e 145 trilhões. Atualizando-se os valores para 2023, com base na correção pelo Consumer Price Index dos EUA, essa contribuição ficaria entre US$ 130 e 160 trilhões, que não são incorporados aos cálculos do PIB. Para o ano de 2023, o Banco Mundial calculou o PIB global em US$ 106 trilhões. Isso demonstra que, além do bem-estar proporcionado, há uma transcendental importância dos serviços ecossistêmicos para a economia mundial.

A agricultura não existiria, tal e qual a conhecemos, sem o suporte dos serviços ecossistêmicos e sem respeitar a biocapacidade. A boa ciência agronômica busca preservar e aproveitar a biocapacidade e os serviços ecossistêmicos, para que possam ser úteis na obtenção de produtos agrícolas, em benefício da sociedade. Usando sistemas de produção sustentáveis, podemos produzir alimentos saudáveis para atender a população, ao tempo em que legamos uma boa herança para as gerações futuras. É o que propugna a Academia Brasileira de Ciência Agronômica e é assim que atuam os engenheiros agrônomos do Brasil. 

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