Agro brasileiro busca maior proximidade com Sudeste Asiático
O esforço visando à abertura de novos mercados para o agronegócio brasileiro registrou um novo avanço com a aproximação entre o país e a Associação das Nações do Sudeste Asiático (ASEAN). Os entendimentos vêm evoluindo não só na área de fornecimento de produtos agrícolas, mas igualmente nas áreas correlatas de segurança alimentar, ciência e tecnologia.
O movimento mais recente nas relações com esse bloco ocorreu no período de 17 a 22 de agosto de 2026, quando o secretário-geral da ASEAN, Kao Kim Hourn, esteve no Brasil a convite do governo brasileiro, acompanhado de dirigentes da entidade. Foi a primeira visita de um secretário-geral da ASEAN ao país. Ele esteve em Brasília e em São Paulo e, junto com a delegação da entidade, visitou áreas experimentais da Embrapa Cerrados, nas quais conheceu tecnologias brasileiras de agricultura tropical.
O ponto que chamou mais a atenção dos visitantes foi a apresentação do modelo brasileiro de desenvolvimento agrícola, especialmente a transformação do Cerrado em uma das grandes regiões produtoras de alimentos do mundo.
Na visita à Embrapa, tiveram a oportunidade de conhecer as soluções criadas pelos pesquisadores brasileiros para adaptação da produção agrícola às condições tropicais, aumento de produtividade e adoção de sistemas produtivos sustentáveis como a Integração Lavoura-Pecuária-Floresta, além do enfrentamento das mudanças climáticas, com o Zoneamento Agrícola de Risco Climático (ZARC). A delegação ainda conheceu pesquisas sobre clones de seringueira.
Vale lembrar, adicionalmente, que antes dessa visita, no período de 11 a 14 de agosto, Brasil e Tailândia realizaram a 2ª Reunião do Grupo de Trabalho Conjunto sobre Agricultura, discutindo justamente inovação, sustentabilidade e segurança alimentar.
Quatro frentes promissoras
A aproximação com o Sudeste Asiático tem pelo menos quatro dimensões que podem ser consideradas promissoras: expansão das exportações brasileiras, diversificação da pauta de produtos enviados para a região, segurança alimentar e transferência de tecnologia. Essas quatro frentes são brevemente analisadas a seguir.
Expansão das vendas
O comércio entre o Brasil e os países da ASEAN passou de aproximadamente US$ 3 bilhões em 2003 para US$ 38 bilhões em 2025, quando foram embarcados para a região açúcar, algodão, café, carnes bovina, suína e de aves, celulose, couro, farelo de soja, milho, trigo e centeio.
Especialistas acreditam que, mantido esse ritmo de crescimento, o Sudeste Asiático tem potencial para superar futuramente o intercâmbio brasileiro tanto com os Estados Unidos quanto com a União Europeia.
Diversificação
Indonésia, Vietnã, Malásia, Tailândia, Filipinas e Singapura estão ganhando importância como compradores de produtos brasileiros.
Ainda compõem o grupo outros cinco países (Brunei, Camboja, Laos, Mianmar e Timor Leste), para os quais as vendas são pequenas, mas que igualmente podem crescer de forma significativa.
Isso interessa particularmente aos segmentos de carnes, milho, soja, açúcar, café, além de vários produtos agroindustriais como óleos vegetais, etanol e alimentos processados.
Segurança alimentar
Esse é um ponto estratégico. A ASEAN congrega, em seus 11 países membros, mais de 700 milhões de habitantes. São economias que precisam aumentar a oferta de alimentos e, ao mesmo tempo, enfrentam limitações de terra, clima e recursos naturais e, por isso, dependem de suprimento externo para cobrir suas necessidades.
Transferência de tecnologia
Esse é outro ponto que interessa particularmente ao Brasil. Alguns países do Sudeste Asiático têm extensas áreas tropicais e problemas semelhantes aos brasileiros. Existe interesse em tecnologias de manejo de solos, melhoramento genético, sistemas sustentáveis de produção, bioinsumos, agricultura tropical e adaptação às mudanças climáticas. Portanto, não se trata simplesmente de vender mais commodities para a Ásia e abrir caminho para a exportação de produtos com maior valor agregado. O movimento pode evoluir para uma relação de cooperação tecnológica e científica.
Nessa área, o Brasil possui uma vantagem relativamente singular, por ter desenvolvido por meio da Embrapa e outras instituições, conhecimento para produzir em condições tropicais anteriormente consideradas pouco favoráveis à agricultura. Essa experiência pode ser interessante para países como Indonésia, Vietnã, Tailândia, Filipinas e Malásia, que estão situados predominantemente em regiões tropicais e têm áreas aproveitáveis para exploração agrícola.
Assim, os entendimentos citados são parte de uma estratégia brasileira mais ampla, cuja finalidade é transformar o Sudeste Asiático não apenas em um mercado consumidor do agro brasileiro, mas em um parceiro estratégico em tecnologia, ciência, investimentos e segurança alimentar.
