Etanol de milho e eucalipto, parceria indispensável

A viabilidade da produção de etanol de milho depende essencialmente da implantação de florestas de eucalipto. Esse é um fator estrutural indispensável para a evolução desse segmento.

Isso se explica: ao contrário da cana-de-açúcar, que gera o bagaço usado pelas usinas como combustível nas caldeiras, o processamento do milho gera apenas o grão seco e resíduos usados em raça animal como DDG e o DDGS (siglas em inglês de Dried Distillers Grains, ou grãos secos de destilaria, e Dried Distillers Grains with Solubles, ou DDG com solúveis reincorporados antes da secagem).

Para realização dos processos industriais de produção do etanol de milho (incluindo cozimento do amido, destilação e secagem do DDGS), as usinas necessitam de calor e vapor contínuos. A fonte térmica mais econômica e sustentável para isso é o cavaco de madeira proveniente de florestas energéticas plantadas, e nesse caso a opção mais viável é o eucalipto. Sem madeira para alimentar as caldeiras, a usina de etanol de milho simplesmente não opera.

Números explicam

Cada 1 bilhão de litros de etanol de milho fabricados exigem uma área contínua de aproximadamente 30 mil a 35 mil hectares de florestas de eucalipto em rotação sustentável para suprir o cavaco de madeira.

Para sustentar uma capacidade de produção próxima de 13 bilhões de litros de etanol de milho até o fim de 2026, seriam necessários cerca de 35 milhões de metros cúbicos de biomassa de eucalipto e um estoque florestal de aproximadamente 440 mil hectares.

Esses números demonstram que a madeira representa o segundo maior custo operacional da usina de etanol de milho, atrás apenas do próprio grão. Se a floresta estiver localizada a mais de 100 km da usina, o frete encarece o cavaco e pode comprometer a margem do projeto.

Estudo avalia cenário

O relatório “O desafio da biomassa para o etanol de milho”, publicado recentemente pela Consultoria Agro do Itaú BBA (liderada pelo engenheiro agrônomo Cesar de Castro Alves), analisa os gargalos de suprimento e as projeções do setor. Ele aborda quatro pontos, avaliando o cenário de Mato Grosso, que representa o coração da produção de etanol de milho no Brasil, detendo mais da metade da capacidade produtiva nacional: necessidade de biomassa, déficit de área plantada, pressão ambiental e oportunidades para o produtor rural.

No que diz respeito aos aportes de biomassa requeridos, o estudo estimou que a expansão do etanol de milho exigirá, até 2030, investimentos entre R$ 7,6 bilhões e R$ 14,3 bilhões em novas florestas energéticas em Mato Grosso.

Quanto ao déficit de área plantada, o estudo partiu da previsão de que a capacidade de produção de etanol de milho no Brasil deve subir de 10,9 bilhões de litros (dado de 2025) para 25,3 bilhões de litros até 2030, sendo que Mato Grosso deve responder por 11,9 bilhões de litros (contra 6,9 bilhões de litros em 2025). Com isso, a demanda no estado deve exigir 383 mil hectares de eucalipto dedicados. Como Mato Grosso tem cerca de 165 mil hectares voltados a esse fim, será necessário incorporar 218 mil hectares adicionais nos próximos quatro anos (considerando do ínicio de 2027 ao final de 2030).

Haverá, ao mesmo tempo, proteção à madeira nativa. Isso porque, historicamente, parte das usinas de etanol de milho utilizou cavaco oriundo de supressão de vegetação nativa autorizada. O relatório destaca que novas regulamentações, como acordos com o Ministério Público em Mato Grosso, limitam progressivamente o uso de madeira nativa a 40% até 2034 e banem totalmente sua utilização a partir de 2035, tornando as florestas plantadas compulsórias para o licenciamento.

Para os produtores rurais, com base nos dados citados, o cultivo de eucalipto passa a ser uma promissora alternativa de diversificação de renda, com uma taxa interna de retorno (TIR) estimada em cerca de 17% ao ano, com um retorno médio de R$ 4,2 mil por hectare/ano (equivalente a cerca de 30 sacas de soja/ha/ano), tornando a floresta competitiva frente a outras atividades agropecuárias em terras de menor aptidão de grãos.

A conclusão do estudo – cujos principais aspectos podem ser extrapolados para outras regiões produtoras com as devidas adaptações – é que a disponibilidade de florestas de eucalipto próximas às usinas de etanol de milho deixou de ser um detalhe logístico secundário, passando a ser determinante para a viabilidade econômica e de sustentabilidade desse segmento.

Imagem de abertura: criada com auxílio de IA (Google Gemini)

Deixe uma resposta