Chuvas e calor favorecem ameaças à saúde dos bovinos
Chuvas mais intensas combinadas com temperaturas elevadas podem criar condições particularmente desfavoráveis para a pecuária bovina no Brasil, tanto de corte quanto leiteira. O problema não se limita à alimentação dos animais. Envolve também conforto térmico, saúde do rebanho, qualidade das pastagens, reprodução e custos de produção. O risco aumenta quando períodos de calor intenso se alternam com chuvas volumosas, alta umidade do ar e solos encharcados, condições que, neste ano, em razão do El Niño, podem se tornar mais frequentes na região Sudeste.
Sete problemas são particularmente importantes nesse cenário: estresse térmico, encharcamento do solo, qualidade das pastagens, pressão de parasitas, risco de doenças, desempenho reprodutivo e elevação de custos. Cada um desses fatores é brevemente analisado a seguir, com base em dados e recomendações da Embrapa Gado de Corte e da Embrapa Gado de Leite.
Estresse térmico
Temperaturas elevadas, especialmente quando acompanhadas de alta umidade, dificultam a dissipação do calor corporal. Os animais passam a respirar em ritmo mais acelerado, procuram sombra, reduzem o consumo de alimento e, com isso, pode ocorrer diminuição no ganho de peso ou na produção de leite. Raças europeias e animais de pelagem escura em geral são mais vulneráveis, embora a resposta nesse caso dependa também da genética, da adaptação e do manejo.
Em dias quentes, para prevenir que os animais venham a ter problemas, é essencial garantir oferta abundante de água limpa, com bebedouros em boas condições, além de proporcionar sombra e ventilação, por meio da preservação de árvores nas pastagens ou a instalação de estruturas de sombreamento, especialmente para vacas leiteiras e animais em terminação. Adicionalmente, é preciso manejar horários, concentrando transporte, apartação e outras atividades nas horas mais frescas.
Encharcamento do solo
O excesso de umidade causa vários problemas. A lama dificulta o deslocamento, o acesso à água e ao cocho e pode aumentar o risco de acidentes. Além disso, amolece os tecidos dos cascos e favorece lesões, inflamações como a pododermatite interdigital, conhecida como foot rot, que afeta os tecidos da região entre os dedos dos cascos, provocando dor, dificuldade de locomoção, queda no consumo de alimento e redução da produção de leite ou do ganho de peso. A inflamação ainda pode evoluir para outras doenças dos cascos, que normalmente exigem intervenção veterinária urgente, como a dermatite digital e o flegmão interdigital, caracterizado pelo aparecimento súbito de claudicação intensa, acompanhado de inchaço simétrico acima dos cascos e odor forte.
Medidas de controle recomendadas para reduzir a exposição contínua dos cascos à umidade: corrigir pontos de acúmulo de água, reduzir a lama em corredores, bebedouros e áreas de alimentação, remover regularmente fezes das instalações e disponibilizar áreas secas para descanso.
Na pecuária leiteira, a umidade também exige cuidados adicionais com a higiene das camas, dos locais de ordenha e das áreas de descanso, devido ao risco de mastite ambiental.
Qualidade das pastagens
Com o retorno das chuvas, as pastagens tropicais voltam a crescer, ampliando a oferta de alimento para os animais. Entretanto, a mudança brusca de uma dieta baseada em forragem seca para uma pastagem muito jovem pode provocar distúrbios digestivos, especialmente quando há consumo excessivo e alterações rápidas na dieta.
A chuva estimula o crescimento das forrageiras, mas isso não significa, necessariamente, melhor nutrição. O crescimento muito rápido pode aumentar o teor de água da planta, reduzir a proporção de matéria seca e alterar o equilíbrio nutricional do pasto. É necessário ressalvar que algumas forrageiras, como Brachiaria humidicola e capim-elefante, apresentam maior tolerância ao encharcamento.
De forma geral, em áreas encharcadas, a saturação do solo reduz a disponibilidade de oxigênio para as raízes, comprometendo sua respiração e o desenvolvimento das plantas. Períodos nublados também podem limitar a fotossíntese, prejudicando especialmente espécies pouco tolerantes ao excesso de umidade.
Para preservar a qualidade nutricional dos pastos, é fundamental evitar a superlotação, monitorar o estado do solo e das forrageiras e ajustar a lotação à capacidade de suporte de cada piquete.
Parasitas
Calor e umidade podem favorecer o desenvolvimento de carrapatos, moscas e outros parasitas, dependendo da espécie e das condições locais. A infestação pode provocar irritação, perda de sangue, menor ganho de peso e transmissão de agentes causadores de doenças.
Entre as principais ameaças sanitárias está o carrapato-do-boi (Rhipicephalus microplus), que provoca irritação, perda de sangue e redução do desempenho produtivo. Sua importância também decorre da transmissão dos agentes causadores da tristeza parasitária bovina (TPB), complexo de enfermidades que inclui babesiose e anaplasmose. A TPB pode provocar febre, anemia, falta de apetite, fraqueza, queda na produção de leite e no ganho de peso. Em casos graves, pode levar à morte. A doença é particularmente relevante em Minas Gerais e em outras regiões onde há interação entre o carrapato, os agentes infecciosos e o grau de resistência dos animais.
O manejo deve incluir inspeções periódicas do rebanho, identificação dos animais mais infestados e adoção de um programa estratégico de controle. A Embrapa Gado de Leite recomenda que o produtor, com orientação técnica, considere o tratamento no início da estação chuvosa, quando as condições ambientais favorecem o ciclo do parasita.
O protocolo de aplicações a cada 21 dias, citado em materiais técnicos da Embrapa, não deve ser seguido como regra universal. O calendário depende do produto, da eficácia local e da orientação veterinária. A própria Embrapa recomenda avaliar a resistência dos parasitas aos carrapaticidas. A escolha do carrapaticida, a dose, o intervalo entre aplicações e o período de carência precisam seguir a bula e a orientação veterinária. O uso repetido de produtos sem avaliar sua eficácia pode selecionar populações resistentes. Por isso, o teste de sensibilidade dos carrapatos aos carrapaticidas é uma ferramenta importante para definir o tratamento mais eficiente em cada propriedade.
Outro parasita que merece ampla atenção é a mosca-dos-chifres (Haematobia irritans), cujas picadas frequentes causam irritação e estresse, interferindo no comportamento dos animais e no desempenho produtivo.
Já a mosca-dos-estábulos (Stomoxys calcitrans) pode proliferar em matéria orgânica úmida em decomposição, como restos vegetais e resíduos acumulados em instalações.
O controle dessas moscas depende da identificação dos focos de reprodução, da remoção de resíduos, da manutenção da higiene das instalações e, quando necessário, do emprego criterioso de produtos registrados para uso veterinário.
Doenças
Ambientes úmidos e quentes podem favorecer alguns agentes infecciosos e aumentar a exposição a parasitas. Lama, acúmulo de fezes e instalações mal drenadas elevam os riscos sanitários. Doenças como leptospirose merecem atenção em situações de exposição à água contaminada pela urina de animais infectados.
Causado por bactérias do gênero Leptospira, esse mal pode ser transmitido pelo contato com água, lama ou ambientes contaminados pela urina de animais infectados. Em bovinos, a doença pode estar associada a abortos, infertilidade, nascimento de bezerros fracos e queda na produção de leite.
A prevenção inclui a proteção dos pontos de abastecimento de água, a redução do contato com áreas alagadas potencialmente contaminadas, o controle de roedores e a adoção de um programa sanitário definido com o médico-veterinário.
A vacinação pode integrar esse programa, conforme os agentes circulantes, o histórico da propriedade e as recomendações técnicas locais. A presença de abortamentos em sequência ou de alterações reprodutivas inesperadas exige investigação veterinária.
O período de chuvas e calor também requer atenção à ocorrência de bicheiras, principalmente em animais com feridas, umbigo de bezerros recém-nascidos ou lesões provocadas por procedimentos de manejo. A inspeção frequente e o tratamento rápido das feridas ajudam a evitar complicações.
Desempenho reprodutivo
O estresse térmico pode prejudicar a manifestação do cio, a qualidade dos óvulos e do sêmen e o desenvolvimento inicial do embrião. Em vacas leiteiras, o calor também pode reduzir a produção. A intensidade desses efeitos varia conforme a raça, a categoria animal, a nutrição e a duração do estresse.
Aumento de custos
Menor consumo de matéria seca, ganho de peso mais lento, problemas nos cascos, maior necessidade de controle sanitário e dificuldades de manejo podem elevar o custo por arroba produzida ou por litro de leite. Chuvas excessivas também podem dificultar o transporte de insumos e animais e a circulação nas estradas rurais.
Calor reduz o desempenho produtivo
A combinação de temperaturas elevadas e umidade relativa alta dificulta a perda de calor corporal dos bovinos. Entre os sinais de estresse térmico estão respiração acelerada, salivação excessiva, procura intensa por sombra, apatia e redução do consumo de alimento.
Essas alterações podem comprometer o ganho de peso, a produção leiteira e o desempenho reprodutivo. A prevenção exige água limpa em quantidade suficiente, sombra natural ou artificial, boa ventilação nas instalações e realização de atividades de manejo nas horas mais frescas do dia.
O produtor também deve evitar, sempre que possível, o transporte e outros procedimentos estressantes durante os períodos mais quentes.
Prevenção, o caminho
A orientação geral é manter um calendário sanitário atualizado, observar diariamente o comportamento dos animais e registrar casos de infestação, doenças, abortamentos e perdas produtivas. A limpeza das instalações, a drenagem das áreas críticas, o controle de vetores e a alimentação equilibrada devem fazer parte de um programa integrado.
O Sistema de Suporte à Decisão na Agropecuária (Sisdagro), do Instituto Nacional de Meteorologia (Inmet), disponibiliza informações sobre conforto térmico bovino que podem ajudar a antecipar períodos de maior risco de estresse térmico.
Mais do que reagir ao aparecimento de doenças, a estratégia é combinar monitoramento, manejo adequado e assistência veterinária. A prevenção reduz perdas, melhora o bem-estar dos animais e contribui para a eficiência econômica da atividade.
Foto de abertura: (Embrapa Banco de Imagens) – editada com auxílio de IA (ChatGPT)
