Vegetais aquáticos têm uso promissor na nutrição de plantas
O uso de organismos aquáticos na agricultura deixou de ser uma prática artesanal e deu origem a uma indústria de alta tecnologia. O Brasil, confirmando sua posição na vanguarda do agronegócio mundial, tem se destacado na realização de pesquisas sobre o tema.
Há várias novidades recentes, resultantes de trabalhos realizados por organizações públicas, como Embrapa e Instituto Agronômico (IAC), e empresas privadas, como Acadian Planta Health, Koppert e Syngenta, as duas últimas em parcerias com cooperativas agropecuárias, como a Coopercitrus, uma das líderes nacionais na difusão de conhecimento e produtos nessa área.
As inovações de maior destaque têm foco na produção de fertilizantes, com pesquisas em execução em quatro frentes: bioestimulantes, novos métodos de extração de nutrientes, macroalgas e aguapé.
Bioestimulantes
A mudança mais importante na abordagem adotada pelos pesquisadores é não mais considerar as algas como fontes de macronutrientes, mas como fornecedoras de micronutrientes e em especial como bioestimulantes, por conter hormônios naturais (auxinas e citocininas), que “ensinam” as plantas a resistir a secas e geadas.
Métodos de extração
Empresas como a canadense Acadian Plant Health (por meio do conceito de negócios Sea Beyond) têm utilizado novos processos, dentre os quais a extração alcalina ou rompimento celular a frio, que garante que os compostos bioativos sensíveis ao calor não sejam destruídos no processamento das algas. Com isso, os produtos resultantes apresentam nível de concentração muito mais alto.
Macroalgas
A Embrapa Agroenergia vem intensificando, desde o ano passado, estudos com macroalgas da costa brasileira. O objetivo é criar formulações específicas para as culturas de grãos, particularmente soja e milho, buscando reduzir a dependência de fertilizantes químicos importados.
Aguapé
O aguapé (Eichhornia crassipes) está sendo usado em projetos de biorremediação, pois tem capacidade para filtrar águas poluídas, removendo até 80% de resíduos de antibióticos e metais pesados. Por meio de biodigestores, a biomassa resultante desse processo é convertida em biofertilizante, além de gerar biogás.
Vantagens
Os estudos realizados até o momento revelam que plantas tratadas com extratos de algas desenvolvem raízes mais profundas e, com isso, resistem mais a períodos de seca, uma vez que conseguem captar água em camadas nas quais a plantas comuns não chegam. O aumento do enraizamento chega até a 10%, proporcionando frutos e grãos com mais qualidade e maior “tempo de prateleira” após a colheita.
Outra vantagem é que, ao contrário do que ocorre com os adubos sintéticos, os produtos extraídos das algas alimentam a microbiota do solo, melhorando sua estrutura física e sua capacidade de retenção de umidade.
Qualquer alga serve?
Na verdade, poucas servem. Estima-se que existam mais de 10 mil espécies de algas no mundo, número que pode ser muito maior se forem consideradas as microalgas. São classificadas principalmente pela cor: pardas ou marrons (cerca de 2 mil espécies), vermelhas (aproximadamente 7 mil espécies) e verdes (de 1.500 a 1.700 espécies).
As pesquisas focam nas poucas variedades que possuem alta concentração de nutrientes e compostos de defesa. Dentre estas, a “rainha” é a alga parda do Atlântico Norte (Ascophyllum nodosum), a mais estudada e utilizada no mundo devido ao ambiente extremo em que vive, com marés altas e baixas, que a obrigam a produzir muitos compostos de proteção, como auxinas e citocininas.
As auxinas agem no alongamento celular e, quando aplicadas em lavouras, sinalizam que as plantas devem investir energia no sistema radicular. As citocininas retardam o envelhecimento vegetal, mantendo a clorofila ativa por mais tempo, mesmo em condições adversas, ao contrário do que ocorre normalmente, quando as plantas, em situação de estresse, “sacrificam” folhas e flores para sobreviver. Em conjunto, esses dois compostos estimulam a produção de estruturas que funcionam como “esponjas” internas nas células, impedindo que murchem e morram por desidratação.
Por sua vez, as algas verdes, de água doce e salgada. também têm importância, como a Kappaphycus alvarezii, muito cultivada no Brasil, e a Ulva lactuca, das quais são obtidos extratos, porém com perfis químicos distintos. São ricas em polissacarídeos, que tornam mais eficiente a absorção de nutrientes pelas plantas.
Por fim, as algas vermelhas são ricas em ágar e carragena, substâncias utilizadas como agentes espessantes, gelificantes e estabilizantes na indústria alimentícia. Seu uso agrícola também vem sendo pesquisado.
As pesquisas nessa área ainda são recentes, acreditando-se que muitas novidades interessantes devem surgir nos próximos anos.

Foto: Goreti Braga (Embrapa Banco de Imagens)
