O agronegócio brasileiro é reconhecidamente um dos mais competitivos do mundo, com potencial de ocupar posições ainda mais elevadas no cenário internacional. Porém, enfrenta um paradoxo estrutural: ao mesmo tempo em que lidera a produção global de alimentos, depende fortemente da importação de fertilizantes, essenciais para sustentar a produtividade do setor.
Nos últimos anos, cerca de 85% dos fertilizantes utilizados pela agricultura brasileira têm sido importados, o que expõe o país a choques externos. Em 2025, essa dependência ficou ainda mais evidente e dramática: o Brasil importou 45,5 milhões de toneladas, um recorde histórico, enquanto o consumo total chegou a aproximadamente 49,1 milhões de toneladas. Ou seja, os fertilizantes importados representaram 92% do total consumidos pelos produtores.
Esse desequilíbrio ganha contornos críticos ante a guerra entre Rússia e Ucrânia e o conflito envolvendo Estados Unidos e Israel contra o Irã.
Guerra Rússia x Ucrânia
Desde 2022, o conflito no Leste Europeu alterou profundamente o mercado global de fertilizantes. Rússia e Belarus estão entre os principais exportadores mundiais, em especial de potássio, que é um dos macronutrientes mais críticos para culturas como as de soja e milho.
As sanções econômicas, restrições logísticas e incertezas comerciais criaram um ambiente de volatilidade de preços, insegurança no fornecimento e concentração de mercado ainda maior. Como resultado, houve uma elevação significativa nos preços globais, cujo preço médio alcançou o pico de US$ 600 por tonelada em 2022.
É importante ressaltar que os fertilizantes não têm um único preço global. Variam em função do tipo (ureia, potássio, fosfato), mas os índices agregados, como o do Banco Mundial, são uma boa referência.
De acordo com esses dados, até 2022, a média de preços era de US$ 200/t a US$ 250/t, caindo a US$ 180/t em períodos de baixa. Após o pico de US$ 600/t em 2022, a média caiu a US$ 350/t a US$ 400/t em 2023 e US$ 300/t a US$ 350/t em 2024 e 2025.
Perspectivas para 2026
A escalada das ações militares no conflito EUA-Israel x Irã expôs ainda mais a fragilidade brasileira.
No início de 2026, o Banco Mundial previa uma queda média de 5% nos preços, com reduções de 7% para ureia, 8% para fosfatados (DAP/MAP) e estabilidade ou leve recuo para potássio. Com isso, previa preços médios variando de US$ 280/t a US$ 330/t neste ano.
O conflito no Oriente Médio desmontou esse quadro: somente a ureia subiu para US$ 600/t em alguns mercados. No Brasil, a alta até o final da primeira quinzena de março chegou a 35%.
Cenários futuros possíveis
Os analistas do mercado trabalham com três cenários: um otimista, outro considerado mais realista e um terceiro supondo o prolongamento da crise.
No cenário otimista, prevendo-se uma descompressão geopolítica, em especial com a volta das rotas de navegação pelo estreito de Hormuz, os preços médios ficariam entre US$ 280/t a US$ 320/t. Esse cenário parece ser o menos provável.
No cenário mais realista, estima-se uma alta no primeiro semestre e estabilização no restante do ano, com preços médios variando de US$ 320/t a US$ 380/t.
No cenário mais crítico, de persistência do conflito e continuidade das restrições comerciais, os preços médios podem situar-se entre US$ 400/t e US$ 500/t, voltando a níveis próximos aos registrados em 2022.
Impactos no agronegócio
A combinação dos vários fatores envolvidos nesses conflitos provoca vários efeitos no agronegócio brasileiro:
- Aumento de custos e redução de margens, pois os fertilizantes, dependendo da cultura, representam de 20% a 40% dos custos totais de produção;
- Risco de queda de produtividade, pois a eventual redução no uso de insumos, seja por preço, seja por escassez, compromete diretamente o rendimento das lavouras;
- Risco inflacionário, pois a menor produtividade ou o custo mais elevado tende a pressionar o preço dos alimentos;
- Perda de competitividade, uma vez que o Brasil compete globalmente com países menos dependentes da importação de insumos.
Saídas possíveis
O debate sobre segurança no fornecimento de fertilizantes se intensificou nos últimos anos, porém as soluções ainda enfrentam desafios de escala, custo e tempo.
Aumentar a produção nacional é o eixo central da estratégia de longo prazo para normalização da oferta. Porém, é uma solução com implantação demorada. Isso porque o Brasil possui reservas minerais relevantes, especialmente de potássio na região amazônica, mas enfrenta entraves como licenciamento ambiental, conflitos fundiários e necessidade de investimentos altos, como no caso de produção de fertilizantes nitrogenados, que depende de gás natural, insumo ainda caro no país, colocando em xeque a viabilidade da indústria nacional.
Para acelerar esse processo, o governo federal lançou em 2022. o Plano Nacional de Fertilizantes, estabelecendo como meta reduzir a dependência externa para cerca de 50% até 2050. Essa estratégia engloba a expansão da produção doméstica, a reativação de plantas industriais existentes e o estímulo à inovação.
No curto prazo, o caminho tido como mais viável é diversificar fornecedores, ampliando compras de países como Canadá (potássio), Marrocos e Estados Unidos (fosfatados e nitrogenados).
Outra solução com prazo mais curto é a busca de maior eficiência produtiva, como a substituição por produtos com menor concentração e a adoção de agricultura de precisão. Um caminho alternativo é o uso de biofertilizantes e agentes de fixação biológica de nitrogênio, que vem ganhando espaço.
Segurança de insumos
Esse complexo cenário revela que a segurança de insumos será, cada vez mais, um fator tão estratégico quanto a própria produção agropecuária. Isso implica um duplo desafio: de um lado, conjuntural, no qual as crises geopolíticas como a atual podem provocar a elevação dos preços, ameaçando o abastecimento; de outro lado, estrutural, com alta dependência externa consolidada ao longo de décadas.
Em resumo, o país deve seguir sendo uma potência agrícola com potencial de ocupar muito mais espaço no mercado internacional, porém requer atenção, pois sua competitividade está cada vez mais ligada à capacidade de garantir acesso a insumos estratégicos.
(Foto: Embrapa Banco de Imagens)
