A cultura de cana-de-açúcar vem passando por uma transformação gradativa, mas irreversível segundo especialistas na área, em razão do papel estratégico que assumiu e que está sendo ampliado.

Os principais fatores responsáveis por essa evolução são a expansão da produção de açúcar, etanol e bioenergia; a crescente demanda mundial por combustíveis renováveis; a valorização de produtos de baixo carbono; o aproveitamento integral da biomassa da cana; e a diversificação industrial do setor sucroenergético.
Isso significa que a cana deixou de ser apenas uma cultura agrícola voltada à produção de açúcar e etanol, para tornar-se uma cadeia industrial ampla, ligada às áreas de alimentação, energia, biotecnologia, química verde e sustentabilidade ambiental. Em consequência, o perfil do setor está mudando, com diversificação de receitas, menor dependência do açúcar e maior estabilidade econômica.
A lógica da biofábrica também tem forte relação com a agricultura regenerativa, pois favorece a reciclagem de nutrientes, a economia de resíduos e o reaproveitamento de carbono. Por isso, a cana gsanhou protagonismo mundial nas discussões sobre transição energética.
É importante ressaltar que não é apenas a cana que está em evolução, mas o agro como um todo, cujo eixo científico deixou de ser apenas produzir mais por unidade de área, passando a mirar cinco alvos adicionais: produzir mais por unidade de carbono; usar menos fertilizante e água; transformar resíduos em energia e biomateriais; aumentar resiliência climática; e integrar agricultura, energia e biotecnologia.
Novas variedades
O setor sucroenergético está migrando para variedades altamente responsivas ao ambiente, combinadas com manejo de precisão por talhão. O objetivo é elevar drasticamente a produtividade e reduzir custos por tonelada produzida.
Na área de pesquisa, o Instituto Agronômico (IAC) e o CTC – Centro de Tecnologia Canavieira trabalham com genética, biotecnologia, sementes sintéticas e manejo integrado, visando praticamente dobrar a produtividade dos canaviais na próxima década.
O IAC é uma das instituições pioneiras da pesquisa agrícola brasileira e teve papel decisivo no desenvolvimento inicial do melhoramento genético da cana-de-açúcar em São Paulo. Em 2024, seu Programa Cana completou 30 anos, celebrando o lançamento de 35 novas variedades ao longo de sua existência.
Já o CTC nasceu ligado ao setor sucroenergético, inicialmente como braço tecnológico da Copersucar, e posteriormente tornou-se uma empresa de pesquisa e inovação voltada à canavicultura e bioenergia.
A colaboração entre as duas instituições ocorre em várias frentes, como intercâmbio científico e formação de pesquisadores; estudos de genética e fitotecnia; avaliações varietais em ambientes distintos; manejo agrícola e fitossanidade; participação conjunta em redes de pesquisa; e cooperação com universidades como Unicamp e USP.
Agricultura de precisão e IA
Sensoriamento remoto, drones, mapas de fertilidade, aplicação variável de insumos e monitoramento hídrico em tempo real tornaram-se centrais na canavicultura moderna.
Nessa área, merecem destaque os estudos desenvolvidos pela Embrapa Agricultura Digital, com ênfase no uso crescente de dados georreferenciados para reduzir desperdícios de fertilizantes e corrigir diferenças dentro dos talhões.
Bioenergia de segunda geração
O bagaço e a palha passaram de resíduos a matérias-primas estratégicas para a produção de etanol celulósicos, biogás, biometano, SAF (combustível sustentável de aviação) e químicos verdes. Estes últimos englobam uma grande variedade de produtos, incluindo ácidos orgânicos, intermediários químicos, bioplásticos, polímeros renováveis, resinas, adesivos, biofertilizantes, entre outras possibilidades.
Há, com isso, um forte avanço na chamada “biorrefinaria da cana”, em que praticamente tudo vira energia ou insumo industrial.
Integração cana + etanol de milho
Usinas flex passaram a operar parte do ano com cana e parte com milho, especialmente no Centro-Oeste.
Pesquisadores da Unicamp desenvolveram microrganismos modificados em laboratório — como leveduras, fungos ou bactérias — capazes de transformar o amido do milho em etanol de forma mais eficiente e barata.
Vale ressaltar que o milho, ao tornar-se matéria-prima energética, também passou a ser gerador de produtos para nutrição animal. Nesse processo, o milho é moído e o amido é transformado em açúcar, que é fermentado por microrganismos e convertido em etanol. O que sobra, um resíduo rico em proteína, fibra e óleo, é transformado em DDG (sigla de Distillers Dried Grains ou “grãos secos de destilaria”) ou em DDGS (sigla de Distillers Dried Grains with Solubles, ou “grãos secos de destilaria com solúveis”). O DDG é seco para facilitar armazenamento e transporte. O DDGS inclui a parte líquida concentrada resultante do processo industrial do etanol e tem mais energia, gordura e nutrientes solúveis, sendo por isso o produto mais comum comercialmente.
Foto: IAC