Ícone do site Portal Agro Credicitrus

Agricultura regenerativa revigora o solo

A agricultura moderna está distante dos tempos em que o solo era explorado até o esgotamento de sua capacidade de nutrir as plantas, sendo em seguida abandonado, com os agricultores partindo em busca de novas terras de cultivo. Esse “nomadismo” caracterizou a agricultura brasileira até o início do século XX e, em alguns casos isolados, persiste até os dias de hoje.

Em contrapartida, nos últimos anos, vem evoluindo com rapidez um movimento que defende a reposição de forma efetiva todos os nutrientes extraídos pelas culturas, em especial a biota, ou seja, o conjunto de organismos vivos que constituem importante riqueza do solo.

Nesse sentido, ganha destaque no cenário mundial o movimento com foco na agricultura regenerativa, sobre a qual tramita no Senado Federal uma proposta que institui uma política oficial para essa modalidade de atividade rural.

Sobre esse tema, Reginaldo Minaré, diretor executivo da Associação Brasileira de Bioinsumos (ABBINS), ressalta: “A agricultura regenerativa não é um movimento ideológico, é um sistema agrícola que visa restaurar e melhorar a saúde do solo, a biodiversidade e a sustentabilidade dos sistemas produtivos. É uma abordagem promissora para a produção de alimentos de forma mais sustentável e resiliente, com benefícios tanto para o meio ambiente quanto para a saúde humana”.

A agricultura regenerativa tem gerado números positivos, tanto em termos de impactos ambientais quanto econômicos. De acordo com analistas do Fórum Econômico Mundial, ao expandir a agricultura regenerativa, o sistema alimentar global tem o potencial de desempenhar um papel significativo no combate às emissões de gases de efeito estufa, ao mesmo tempo em que proporciona benefícios ambientais adicionais.

Santana Diaz, chef do Centro Médico da Universidade da Califórnia em Davis, por exemplo, trabalha para a direcionar a instituição para a agricultura regenerativa, comprando carne bovina de criação regenerativa, e afirma que alimentos cultivados em campos, pomares e pastagens com práticas saudáveis ​​de manejo do solo, simplesmente resultam em refeições mais saudáveis, nutritivas e saborosas.

Projeto de Lei

No Brasil, apesar da ausência de um marco jurídico específico, a prática da agricultura regenerativa está acontecendo. “Muitos agricultores já fizeram a transição da agricultura convencional para a regenerativa e outros estão neste processo”, revela o diretor-executivo da ABBINS.

Para auxiliar neste entendimento, instituições oficiais começaram o debate. “Uma iniciativa foi a do senador Sérgio Petecão (PSD/AC), que apresentou o Projeto de Lei – PL n° 1.787, de 2025, propondo a instituição de uma Política Nacional de Fomento à Agricultura Regenerativa (PNFAR). Nos incisos I e II do artigo 3° do PL, estão previstos requisitos para a identificação de uma agricultura regenerativa e das práticas regenerativas”, detalha Minaré.

O PL já iniciou sua tramitação no Senado e no último dia 17 de maio encerrou o prazo para apresentação de Emendas perante a Comissão de Meio Ambiente. Não foram apresentadas emendas. A proposta segue agora para a Comissão de Agricultura e está aguardando a designação do relator.

Estudo citado na justificativa do projeto, um levantamento do Boston Consulting Group, em parceria com o Ministério da Agricultura e Pecuária, estima que práticas regenerativas no Cerrado poderão gerar até US$ 100 bilhões em retorno financeiro e agregar US$ 20 bilhões ao PIB do País até 2050. A análise identificou 32,3 milhões de hectares com potencial para regeneração, sendo 23,7 milhões de hectares em recuperação de pastagens degradadas e 8,6 milhões de hectares em área em que pode ser intensificada a agricultura sustentável.

Além de incentivos financeiros, técnicos e fiscais a produtores que adotarem práticas regenerativas, a proposta também prevê ampla participação social na formulação da política, envolvendo representantes do setor produtivo, comunidades tradicionais, sociedade civil e comunidade científica.

Desafios e oportunidades

Além de políticas públicas, Minaré cita outras necessidades para a adoção da prática. “O debate político é importante para que a agricultura regenerativa seja mais discutida, para que mais pessoas entendam seus benefícios e a importância de sua adoção em larga escala. Mas, vale lembrar que a agricultura regenerativa não tem uma definição padrão, e nem deve ter”, diz, complementando: “Entretanto, para evitar a proliferação do greenwashing e desinformação, é importante que tenha uma orientação bem estabelecida, com abertura para contemplar diversas metodologias, pois estamos falando de um processo que tem como foco a recuperação da vida do solo, e isso pode ser feito de diversas maneiras.”

Empresas e governos já identificaram oportunidades e desenvolvem parcerias para impulsionar o segmento. Em julho de 2023, por exemplo, PepsiCo e a Walmart anunciaram cooperação de sete anos para investir US$ 120 milhões na ajuda aos agricultores norte-americanos e canadenses em seus esforços para melhorar a saúde do solo e a qualidade da água.

Várias nações europeias, como França, Alemanha e Espanha, também iniciaram medidas para incentivar os métodos agrícolas regenerativos, tais como incentivos financeiros e assistência técnica aos agricultores, à medida que transitam para práticas mais sustentáveis.

Minaré cita dois outros exemplos: em janeiro de 2025, o governo da Califórnia propôs uma orientação para identificar a agricultura regenerativa; em Portugal, o evento Regenerative Wine Fest já está em sua 2ª edição. “São bons exemplos para o agricultor e a economia. Contudo, é importante ressaltar que a agricultura regenerativa será algo cada vez mais importante para a sociedade como um todo. Quem não acreditar na agricultura regenerativa ficará desatualizado. Seguramente, essa será a agricultura convencional do amanhã”, completa.

Sair da versão mobile